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	<title>ιγν ign ιγν</title>
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	<description>design, music, art, high life</description>
	<pubDate>Tue, 02 Mar 2010 19:07:15 +0000</pubDate>
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		<title>Dolls (2002)</title>
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		<pubDate>Fri, 26 Feb 2010 13:29:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>pedro</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[cinema]]></category>

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Todos os personagens de Dolls vivem em função de um único elemento, essencial em suas existências. O fã Nukui (Tsutomu Takeshige) dedica todo o seu tempo, seja o descanso ou seu trabalho, ao objeto de adoração, a cantora Haruna (Kyôko Fukada); o mafioso Hiro (Tatsuya Mihashi) abandonou sua amada Ryoko (Chieko Matsubara), mas não a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" style="text-align: center;"><a href="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2010/02/dolls-poster.jpg"><img class="size-full wp-image-446 alignnone" title="dolls-poster" src="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2010/02/dolls-poster.jpg" alt="dolls-poster"/></a></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Todos os personagens de <strong>Dolls </strong>vivem em função de um único elemento, essencial em suas existências. O fã Nukui (Tsutomu Takeshige) dedica todo o seu tempo, seja o descanso ou seu trabalho, ao objeto de adoração, a cantora Haruna (Kyôko Fukada); o mafioso Hiro (Tatsuya Mihashi) abandonou sua amada Ryoko (Chieko Matsubara), mas não a esquece, ao passo em que ela é irrestritamente devota ao amante perdido; os mendigos Matsumoto (Hidetoshi Nishijima) e Sawako (Miho Kanno), por sua vez, não têm um amor absoluto por uma pessoa, tampouco um ao outro. Ambos, porém, possuem um mesmo objeto de obsessão infindável: o fio, físico, que os une. A corda vermelha dita suas vidas de forma bem literal: se um obstáculo os enrosca, eles têm dificuldade de seguir em  frente. E o caminho é sempre para frente, sempre andando em direção a algo que não se sabe o que é.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;">
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Essa falta de objetivo tem a mesma frouxidão do elo, que se arrasta molemente atrás dos dois e raramente é levado à tensão. É uma bela metáfora sobre a uma relação estagnada e sem sentimento, focada apenas naquilo que os une – seja um laço físico ou a instituição do matrimônio. O arco morto que é formado atrás deles só serve para causar pequenos trancos e impedir o tedioso e senil passo em direção a lugar nenhum, e nem mesmo essas pausas causam qualquer impacto no casal – o andar não tem nenhum valor de movimento. A conexão não adiciona nada e nem os torna mais próximos, servindo apenas como uma melancólica impossibilidade de se afastar. Em comparação com as outras duas histórias, fica a impressão de que isso é bom, pois a distância causa tristeza e não raro impossibilita a reconciliação.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;">
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;"><a href="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2010/02/dolls-2.jpg"><img class="size-full wp-image-447 alignnone" title="dolls-2" src="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2010/02/dolls-2.jpg" alt="dolls-2"  /></a></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">No entanto, falta intensidade ao amor lânguido que Matsumoto e Sawako vivem. Os erros cometidos ao longo da vida dos personagens (o desprezo de Hiro, a timidez de Nukui) não são postos em xeque, pois têm suas conseqüências inescapáveis. Além disso, só com a distância os personagens conseguiram reconhecer o valor das pessoas às quais tanto queriam. Os momentos que passam em sua presença não são redenções nem compensações para a vida de separação, e sim momentos novos de imensa voltagem emocional que não seriam capazes de vivenciar em outras circunstâncias. Eles não vivem re-uniões únicas na vida <em>apesar</em> <em>dos </em>anos de afastamento; eles as vivem <em>por causa do</em> afastamento. Mesmo assim, Takeshi Kitano mantém os reencontros triviais e suaves em tom, atestando que aquilo é o natural dentro da falibilidade humana. As pessoas só sabem viver em altos e baixos.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;">
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Voltando aos mendigos, a diferença é fácil de notar: não há altos e baixos em suas vidas. Há pequenas tensões, como quando ele puxa uma Sawako hipnotizada pela vista, mas nunca algo que mude a situação. No filme, são os que recebem mais tempo de projeção: a ruptura ocorre cedo, e a reconciliação física é bastante rápida, mas a frieza emocional se mantém. Embora o retorno de Hiro a Ryoko e o encontro de Nukui e Haruna também marquem uma aproximação sensorialmente manca, a privação não é tão completa quanto a do casal amarrado.O fã está meramente cego, mas não se permitiu perder a visão sem ter gravada a imagem da amada, então é só um reles detalhe que torna o encontro incompleto – e melhor do que seria na vida real, já que a cantora está com uma atadura que a enfeia. Já o mafioso usa a máscara do anonimato para se aproximar do amor perdido, talvez evitando muito do drama que sua identificação geraria e ganhando um almoço – como se ela trouxesse uma nova possibilidade de amor. A não-completude, nos dois casos, torna tudo melhor do que seria se os sentidos e verdades fossem expostos.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;">
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;"><a href="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2010/02/dolls-3.jpg"><img class="size-full wp-image-448 alignnone" title="dolls-3" src="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2010/02/dolls-3.jpg" alt="dolls-3" /></a></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">A relação incompleta que Matsumoto consegue com sua amada está aquém em termos de contatos novos e velhos – está presa num presente modorrento, sem futuro e sem a espontaneidade conquistada no passado, que se encontra morto e esquecido. Eles estão atados por um meio físico, bruto, que nada tem a ver com sentimentos. A esperança vai se introduzindo através de elementos sutilíssimos: em certo momento, o arco que se arrasta começa a trazer folhas caídas consigo. A ligação finalmente consegue agregar algo, folhas mortas que sejam, no caminho. Na neve que encontram logo depois, as pegadas marcam sua passagem, como que dando significado à presença física dos dois, desde o início descorporizados como um mito distante. Esse é o primeiro passo para uma noção completa da presença de um para o outro.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;">
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;"><a href="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2010/02/dolls.jpg"><img class="size-full wp-image-449 alignnone" title="dolls" src="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2010/02/dolls.jpg" alt="dolls" /></a></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Ao encontrarem duas belas roupas penduradas num varal, o sentido vai se tornando mais forte; a idéia de par, de dupla contido nas vestimentas é incorporado ao casal que as veste. Os rastros se tornam maiores, largos, reforçando a fisicalidade e dando a impressão de que a corda perde a importância como objeto de união forçada. As memórias retornam num fluxo, e o abraço tem um peso tão intenso pois prescindiu de um imenso tempo para se viabilizar. Matsumoto demora a entender, tamanha a discrepância entre o reencontro físico e o emocional. O amor é pleno, talvez mais intenso que o de Nukui e Haruma, ou o de Hiro e Ryoko, pois enfrentou dois distanciamentos, duas trajetórias de solidão e duas momentâneas impossibilidades de reconhecimento.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;">
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;"><a href="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2010/02/dolls-4.jpg"><img class="size-full wp-image-450 alignnone" title="dolls-4" src="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2010/02/dolls-4.jpg" alt="dolls-4"  /></a></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">A tragédia se completa em todos os três casos, em belíssima coerência a cada particularidade. Nukui e Hiro morrem por causa de decisões que fizeram no passado, mas isso só ocorre na ressaca de seus respectivos reencontros, indo do extremo alto ao extremo baixo de forma irrefreável, irresistível. A escolha de ambos foi intensificar o sentimento, mas isso só pode acontecer quando o final está próximo. O chefão não pode fazer nada para redimir o sofrimento que causou, e o fã não pode fazer nada para ser notado por sua deusa na condição plena de deusa. Matsumoto e Sawako, por sua vez, têm na própria relação o objeto de obsessão, e isso também os joga na escatologia quando o já desnecessário elo físico suspende suas mortes e os deixa na mais completa estagnação. Tal qual bonecos que se movimentam sob o controle de títeres ocultos, ninguém escapa de seu destino na obra de Takeshi Kitano.</p>
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		<title>Através das Oliveiras (Zire darakhatan zeyton - 1994)</title>
		<link>http://www.igndes.com/blog/2010/02/01/atraves-das-oliveiras-zire-darakhatan-zeyton-1994/</link>
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		<pubDate>Mon, 01 Feb 2010 13:54:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>pedro</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[cinema]]></category>

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		<description><![CDATA[
Ao abordar as filmagens de um filme iraniano, dirigido pelo personagem de Farhad Kerhadmand, em Através das Oliveiras, o diretor-roteirista Abbas Kiarostami busca o máximo de realismo. Ele mostra tomada por tomada, gesto por gesto e fala por fala o processo de gravação de uma única cena, usando a própria visão da câmera ficcional como [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" style="text-align: center;"><a href="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2010/02/through_the_olive_trees.jpg"><img class="size-full wp-image-431 alignnone" title="through_the_olive_trees" src="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2010/02/through_the_olive_trees.jpg" alt="through_the_olive_trees" width="228" height="301" /></a></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Ao abordar as filmagens de um filme iraniano, dirigido pelo personagem de Farhad Kerhadmand, em <strong>Através das Oliveiras</strong>, o diretor-roteirista Abbas Kiarostami busca o máximo de realismo. Ele mostra tomada por tomada, gesto por gesto e fala por fala o processo de gravação de uma única cena, usando a própria visão da câmera ficcional como a visão da sua. O que é curioso é que o ator se apresenta assim, como o ator que interpreta o diretor do filme-dentro-do-filme, e não simplesmente como o cineasta da trama. Esse detalhe passageiro que abre o filme faz toda a diferença, pois funde as duas seleções de garotas em uma só, permitindo que as duas obras se reforcem mutuamente.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;">
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;"><a href="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2010/02/through-the-olive-trees.jpg"><img class="size-full wp-image-425 alignnone" title="through-the-olive-trees" src="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2010/02/through-the-olive-trees.jpg" alt="through-the-olive-trees" width="424" height="254" /></a></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">A metalinguagem, porém, pára por aí, pois o filme do diretor ficcional não trata de histórias reais, limitando-se a usar a destruição e o terremoto apenas como pano de fundo para a história que pretende contar. As interrupções e erros de filmagem ocorrem exatamente por causa da vida real dos atores, que destoam bastante dos personagens que têm de interpretar para Kerhadmand. A natureza desses traços “reais”, como a gagueira que acomete o primeiro escolhido para o papel, traz um valor cinematográfico notável – nesse caso em particular, um certo tom cômico. As relações entre o casal de protagonistas definitivo, por sua vez, também mostram intempéries por um viés narrativo bastante distinto.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;">
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Há uma poesia aparentemente sardônica envolvendo Hossein e Tahereh. As declarações do apaixonado são verbalizadas ao máximo, enquanto a jovem se mantém calada enquanto lê seu livro de estudos – embora seja dito que, na cultura iraniana, ela não se apresenta tão distante e fria quanto faz parecer para olhos ocidentais. Essas aproximações amorosas, de uma sinceridade extensa, sofrem interrupções constantes por causa das gravações do filme. É tocante, inteligente e um tanto ácido o teor dessas passagens, pois a realidade é entrecortada pela ficção sem cerimônia. Kiarostami parece interessado no real, vendo a ficção como a ruptura de algo muito mais pungente.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;">
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;"><a href="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2010/02/through.jpg"><img class="size-full wp-image-426 alignnone" title="through" src="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2010/02/through.jpg" alt="through" width="404" height="241" /></a></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;">
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Entretanto, as declarações de Hossein são tão insistentes que não acabam prejudicadas pelos impedimentos e nem mudam de tom: o homem vai em frente, como se nada tivesse ocorrido, como se aquele fingimento irrisório não influísse em absoluto em sua vida real. Quando o filme interrompe a &#8220;vida&#8221;, é apenas a resolução de Hossein que mantém sua declaração em movimento; o filme, por sua vez, sofre impedimentos quando confrontado com o real, e Kiarostami registra um enriquecimento do processo de criação, não necessariamente do filme que está sendo feito. Não há combate entre realidade e ficção, e sim um pacto em que ambos mostram seus valores e suas certezas e intensificam suas capacidades – seja na integridade do real perante o ficcional, seja no uso que o diretor de <strong>Através das Oliveiras</strong> faz dessa metalinguagem. O título segue caminho similar: há uma poesia notável nele, mas também representa a banal presença de oliveiras na frente dos atores, forçando-nos a olhar através delas para vê-los.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;">
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Ao mesmo tempo, não se pode negar que há uma construção narrativa e cênica muito cuidadosa ocorrendo quando o casal está presente. De início, os conflitos antigos interrompiam e atrasavam as filmagens de Kerhadmand, mas há um processo de inversão que culmina na interrupção do diálogo entre Hossein e Tahereh por causa das filmagens. É belíssima a forma como ambos, as gravações e as declarações, se mantêm inexoráveis em seu rumo e determinação: o filme não pára porque é ditado pelo roteiro, definitivo; pretendente, por sua vez, segue firme apesar dos obstáculos porque é na paixão por Tahereh que ele tem uma base indubitável. Ele chega a repetir coisas que já disse, como se recitasse um diálogo já escrito – o que faz desabrochar uma poesia muito mais doce, na representação do amor como algo sólido em sua mente.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;">
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2010/02/through-the-olive-t.jpg"><img class="size-full wp-image-428 alignnone" title="through-the-olive-t" src="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2010/02/through-the-olive-t.jpg" alt="through-the-olive-t" width="397" height="246" /></a></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;">
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Um dos melhores exemplos para demonstrar essa atenção aos elementos da cena é o momento em que Hossein distribui chá para a equipe. Não só a câmera acompanha apenas a bandeja e o gesto de oferecer as bebidas, como também há um controle do número de recipientes e de pessoas que os aceitam, de forma que sobrem exatamente dois. Daí se desenrola mais um meio de se aproximar de Tahereh, dando à tomada um valor romântico inegável. Da mesma forma, o carinho e a pena que o diretor Kerhadmand sente por Hossein advém de conversas já mostradas, reforçando o caráter narrativo de suas atitudes, como quando diz &#8220;Deixem Hossein descansar, ele trabalhou bastante&#8221;. Logo, esse ato de generosidade é causado pelo conhecimento do diretor, e tal viés entra em choque com uma visão da bondade como algo natural e real: teve de haver a intromissão de Kiarostami no roteiro para tornar tal gesto possível. O que, no fim das contas, talvez não importe - a ficção não é menos real só porque trata de sentimentos sinceros.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;">
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;"><a href="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2010/02/through-the-o.jpg"><img class="size-full wp-image-429 alignnone" title="through-the-o" src="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2010/02/through-the-o.jpg" alt="through-the-o" width="408" height="244" /></a></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Essa história sobre o fazer ficção termina de uma forma aberta, o que não é de forma alguma banal. Afinal, diferentemente dos atores contratados por Kerhadmand, Hossein, sua experiência e sua bagagem de vida não podem ser substituídos ou adaptados por causa de intempéries externas. Ele é único e só tem aquela chance, e fica para o espectador a decisão: isso torna o resultado final vitorioso ou fracassado? É uma forma de olhar para dentro, para a criação de uma história dentro de quem assiste, pois é da mais intransferível visão sobre a ficção que o final é feito.</p>
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		<title>Salve Geral (2009)</title>
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		<pubDate>Thu, 07 Jan 2010 17:14:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>pedro</dc:creator>
		
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Muito se fala sobre a defesa que Salve Geral faz do Primeiro Comando da Capital e de seus atos no fatídico “dia em que São Paulo parou”. Passando reto pela incoerência de cobrar senso crítico ao conhecer um movimento ideológico e seus idealizadores, as reivindicações podem fazer sentido: o filme de Sérgio Rezende é maniqueísta [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" style="text-align: center;"><a href="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2010/01/salve-geral-poster.jpg"><img class="size-full wp-image-385  aligncenter" title="salve-geral-poster" src="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2010/01/salve-geral-poster.jpg" alt="salve-geral-poster" /></a></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Muito se fala sobre a defesa que <strong>Salve Geral</strong> faz do Primeiro Comando da Capital e de seus atos no fatídico “dia em que São Paulo parou”. Passando reto pela incoerência de cobrar senso crítico ao conhecer um movimento ideológico e seus idealizadores, as reivindicações podem fazer sentido: o filme de Sérgio Rezende é maniqueísta em diversos momentos e, na grande maioria, os maus (caricatos) são os policiais e a Lei. Daí é fácil deduzir, aproximar ou resumir que os integrantes do PCC são os heróis oprimidos da história em questão, e aí reside um erro grosseiro.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">“Oprimidos” são tudo que os bandidos não são. De dentro de suas celas, ou seja, com grandes limitações, eles controlam uma organização rápida, abrangente e eficaz, e não raro têm os homens da lei nas mãos. Esse aspecto é bem ilustrado e entra em contradição óbvia com a proposta de liberação dos presos injustiçados. Não é estar encarcerado ou livre, mas ter poder e dinheiro ou não ter que determina quem domina quem – surpreendentemente, os prisioneiros comuns são tão massa de manobra quanto “aqui fora”. O título do filme traz esse subtexto, acenando para algo muito mais abrangente que os ataques de maio de 2006.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;"><a href="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2010/01/salvegeral.jpg"><img class="size-large wp-image-389  aligncenter" title="salvegeral" src="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2010/01/salvegeral-1024x544.jpg" alt="salvegeral" /></a></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">A eficácia do grupo também é ocasionalmente posta em xeque, pois também está sujeita ao controle da chantagem e da corrupção. A Ruiva (Denise Weinberg, excelente) não deixa dúvidas: sua lealdade está com quem dá mais benefícios, e uma viagem para Montevidéu é muito mais vantajosa que o 13º que ganharia se fosse empregada pelo governo. O PCC é um grupo fundado com base no “nosso jeitinho”, então é automaticamente mais propenso a atrair entusiastas que o sisudo e correto sistema. O questionamento não é sobre a validade do partido, e sim sobre a evidente vantagem que uma organização de funcionamento tão diverso da das instituições legítimas tem perante os olhos da sociedade.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">O brasileiro comum, fica claro, não tem escolha senão seguir os que prometem mais possibilidades vantajosas. Lúcia (Andréa Beltrão) procura ajudar seu filho, mesmo que sue crime tenha sido sério, e em seu desespero não vê saída na lógica cristalizada dos tribunais. Entretanto, ela é imune à doutrina do Partido – é grata pela ajuda e faz sua parte nos tratos, mas não se filia. O mesmo ocorre com seu filho Rafael (Lee Thalor), que só aborda os chefões para conseguir algo, e só consegue usar o poder universal do dinheiro. O esquema se fecha com os fornecedores temporários e os permanentes, e o jogo de interesses transparece em ambos os casos. A tão criticada idealização só se mantém no texto do manifesto e em seus seguidores – os outros apenas querem se safar.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;"><a href="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2010/01/salve-geralssss.jpg"><img class="size-full wp-image-388  aligncenter" title="salve-geralssss" src="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2010/01/salve-geralssss.jpg" alt="salve-geralssss"  /></a></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Rezende não evita a obviedade ao mostrar a face podre de ambas as facções em  oposição. A escala com que o faz, porém, chama a atenção: não é apenas a polícia e os bandidos que aparecem em retratos ingratos, mas inúmeras seções da sociedade brasileira. A lista de personagens é extensa e o andamento da trama é veloz, comprimindo tudo em duas horas que parecem três – o que é um elogio. Buscando a abrangência, o roteiro destitui de princípios e escrúpulos todo tipo de pessoa, de juízes, advogados e políticos a chefões do crime e membros menores do partido – quando não são movidos por interesses de alguma forma escusos, é na incompetência que caem.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">O discurso não é novo, e os tumores da sociedade já foram expostos de forma mais elaborada (embora nem sempre com tanta virulência), mas o ataque não pára por aí. A figura materna, força-motriz do mergulho à organização criminosa, tem todo seu ímpeto heróico drenado. A cena do dia das mães e, mais notavelmente, a tomada que encerra o filme não revelam uma maternidade feroz, e sim uma relação ordinária. O beijo que ele dá em Lúcia é um tanto mecânico, o sorriso um tanto cansado. Não há o desespero e o amor que caracterizam histórias em que um filho está em apuros; é uma relação tão natural, no sentido de &#8220;trivial&#8221;, até de &#8220;obrigatória&#8221;, quanto os conluios com o PCC.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;"><a href="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2010/01/salve-geral.jpg"><img class="size-medium wp-image-386  aligncenter" title="salve-geral" src="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2010/01/salve-geral-300x198.jpg" alt="salve-geral" /></a></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">O romance da mulher com o Professor (Bruno Perillo) traz pelo menos um momento absurdo e escandalosamente piegas: ela declara para ele que iria para a prisão só para os dois ficarem juntos. Esse exagero porém, escancara a entrega romântica ao opô-la à falta de dedicação por Rafael. Não só ela nunca promete algo tão desvairado para o filho, como também deixa de visitá-lo para ficar com o amante. Embora, no início, a tristeza da mãe seja genuína, logo descobre-se que ela é formada em Direito. Apenas com insistência externa ela aceita usar o diploma para o bem do filho – e depois dessa constatação brutal, a falia da Lei e o sucesso do suborno se tornam secundários. Mais uma prova de que o PCC opera onde o poder oficial não alcança, com a diferença de que não havia nem um amor digno de quebrar tantas regras e barreiras. O partido ajuda quem pode ajudá-los, predando o sistema de tantas maneiras e por motivos tão banais que os esforços para mudá-lo soam como pura hipocrisia demagógica.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;"><a href="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2010/01/salve-geral-3.jpg"><img class="size-full wp-image-387  aligncenter" title="salve-geral-3" src="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2010/01/salve-geral-3.jpg" alt="salve-geral-3" /></a></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Apesar de tanto pessimismo e ferocidade, <strong>Salve Geral</strong> é um filme profundamente falho, não apenas em detalhes menores. Um sem-número de cenas chave são pessimamente encenadas (o primeiro contato entre Lúcia e o Professor) ou ruins mesmo no papel (o crime de Rafael), e há diálogos, como a didática explicação de Lúcia para o espectador no início, que passam dos limites do ridículo. É notável, portanto, que com tão pouco controle sobre a técnica o filme alcance semelhante poder e abrangência em seu discurso. Sua coragem não está em expor todas as castas de ambos os “lados” da sociedade operando em conjunto; nem em questionar a separação dos bons e dos maus – afinal, o processo resvala num incoerente maniqueísmo. A obra é corajosa ao negar características de uma das figuras mais límpidas da ficção e de fora dela para encorpar um pessimismo genuinamente desesperador.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>OSCAR / IMPROVISATION 1</title>
		<link>http://www.igndes.com/blog/2010/01/03/oscar-improvisation-1/</link>
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		<pubDate>Sun, 03 Jan 2010 23:36:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Julioam</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Arte]]></category>

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		<description><![CDATA[Video de Hedi Slimane para a Vman]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="size-full wp-image-369 alignnone" title="oscar4466-1-1" src="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2010/01/oscar4466-1-1.jpg" alt="oscar4466-1-1" /></p>
<p style="text-align: justify;">Video Inspiração dirigido por Hedi Slimane produzido para a Vman em comemoração as festividades de final de ano. O video conta com a participação de Oscar Nilsson, bailarino na &#8220;THE ROYAL DANISH BALLET THEATER&#8221;.</p>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-368" src="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2010/01/3017.jpg" alt="3017" /></p>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-370" title="oscar-nilsson" src="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2010/01/oscar-nilsson.jpg" alt="oscar-nilsson" /></p>
<p style="text-align: center;"><object width="560" height="340" data="http://www.youtube.com/v/-hw7g1x62yk&amp;hl=en_GB&amp;fs=1&amp;" type="application/x-shockwave-flash"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/-hw7g1x62yk&amp;hl=en_GB&amp;fs=1&amp;" /><param name="allowfullscreen" value="true" /></object></p>
<p style="text-align: center; font-size: 10px; font-weight: bolder;">(re)Sources:</p>
<p style="text-align: center; font-size: 10px;">- http://www.vman.com/happyholidays/<br />
- http://www.hedislimane.com/</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Aguirre, a Cólera dos Deuses (Aguirre, der Zorn Gottes - 1972)</title>
		<link>http://www.igndes.com/blog/2009/12/20/aguirre-a-colera-dos-deuses-aguirre-der-zorn-gottes-1972/</link>
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		<pubDate>Sun, 20 Dec 2009 16:50:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>pedro</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[cinema]]></category>

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		<description><![CDATA[
Os diários em que Aguirre, a Cólera dos Deuses baseia seu roteiro não são mais que uma fonte de inspiração. A pontual narração em off dá a sensação constante de brevidade, enquanto o filme se desenrola em uma série de tensões e conflitos. A trama desenvolvida a partir desses registros fragmentários é poderosa, pois não [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" style="text-align: center;"><a href="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2009/12/aguirre-poster.jpg"><img class="size-full wp-image-355  aligncenter" title="aguirre-poster" src="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2009/12/aguirre-poster.jpg" alt="aguirre-poster" /></a></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Os diários em que <strong>Aguirre</strong><strong>, a Cólera dos Deuses</strong> baseia seu roteiro não são mais que uma fonte de inspiração. A pontual narração em <em>off</em> dá a sensação constante de brevidade, enquanto o filme se desenrola em uma série de tensões e conflitos. A trama desenvolvida a partir desses registros fragmentários é poderosa, pois não se importa com sutilezas (palavra que não deve existir no vocabulário do personagem-título): Lope de Aguirre (Klaus Kinski) assume o comando e prova sua loucura e brutalidade bem cedo. A própria narrativa se torna fragmentada, pois se vê à mercê de um tirano louco que lança seus soldados numa empreitada ao mesmo tempo tediosa e mortal.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Mesmo assim, o roteiro não é o que mais chama a atenção no filme, tampouco tem um valor meramente ficcional, pois Herzog desenvolve um jogo complexo calcado no fazer ficção. Antes de tudo, o que se deve notar é a crua realidade do que a câmera registra. Quando pessoas, animais e veículos atolam no lamaçal, não existe encenação, e o mesmo pode ser dito quando cavaleiros se enroscam no matagal ou quando uma árvore arruína o telhado da balsa. O diretor deixa claro logo de início que não está brincando: filma uma correnteza assustadora, ao que Kinski reage de uma forma fria e cética, pois racional: “nós não vamos atravessar o rio”, uma franca ironia com sua derrocada.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;"><a href="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2009/12/aguirre-6.jpg"><img class="size-full wp-image-356   alignnone" title="aguirre-6" src="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2009/12/aguirre-6.jpg" alt="aguirre-6" /></a></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">A belíssima cena que abre o filme também mostra claramente que aquelas pessoas (os atores, os figurantes, os realizadores) seguiram um trajeto tortuoso e ameaçador. Assim, a filmagem da ficção se torna relativa, pois há muita verdade nas imagens, e algumas são feitas de pura verdade, como a constante tensão dos cavalos na barca. O resultado é um estarrecedor instante em que Kinski, num acesso de fúria que pode ser seu, de Aguirre ou de ambos, sobressalta o animal de tal maneira que ele vai ao chão. Usando a decupagem a seu favor, Herzog não se furta a filmar certos eventos, como a perigosa descida das balsas, de vários ângulos: nesse momento, ele quer ressaltar que aquilo é um filme, o que pode parecer um engodo numa obra tão atenta ao realismo prático. Contudo, é essencial mostrar, como na cena citada, que toda a equipe esteve na hora e no lugar capturados pelas câmeras.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;">
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;"><a href="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2009/12/aguirre-monkey.jpg"><img class="size-full wp-image-358  aligncenter" title="aguirre-monkey" src="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2009/12/aguirre-monkey.jpg" alt="aguirre-monkey" /></a></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Muito mais que auto-congratulação por feitos ousados, essa proposta gera uma profunda reflexão cinematográfica. Peguemos o exemplo do discurso de Pizarro (Alejandro Repulles): em boa parte da cena, fumaça se projeta em seu rosto, tornando sua cabeça distante algo como uma manifestação divina, porém, logo em seguida um plano enquadra a mesma fumaça, que vem de uma fogueira e não mais encobre Pizarro. É uma delação poderosa do efeito cênico, mas, mesmo assim, a fogueira estava lá, e era totalmente necessária para um grupo de centenas de homens genuinamente ensopados. Perguntar quão real é o forjado é o mesmo que perguntar quão forjado é o real.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;">
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;"><a href="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2009/12/aguirre-3.jpg"><img class="size-full wp-image-357 alignnone" title="aguirre-3" src="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2009/12/aguirre-3.jpg" alt="aguirre-3" /></a></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Ainda nesse discurso, é possível ver Repulles constantemente fitando a câmera diretamente – e isso se repete com Aguirre/Kinski olhando em volta na balsa. O efeito não é uma banal inclusão do diretor ou mesmo do espectador na viagem; a potência dramática e, para todos os efeitos, histórica da trama ganha uma relevância ainda maior. Ao adentrar uma selva densa ou um rio caudaloso e filmar uma história inspirada em registros escritos, Herzog não se propõe nem a revisitar (ou, pior, a reencenar) o acontecimento como ocorreu. O projeto é filmar algo novo, passar por uma experiência que traga seus próprios efeitos e conseqüências – a câmera é prova inegável, já que é molhada e sujada, treme e balança ao sabor daquilo que está filmando.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;">
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Enfim, a idéia é partir de uma verdade histórica marcada em papéis para alcançar uma verdade tátil e instantânea – ou seja, tipicamente cinematográfica –, que é capturada de forma sublime pelas lentes das câmeras. Em vez de se firmar no passado, a obra passa uma sensação constante de presente, pois a jornada é sua própria criadora metalingüística. Herzog não reproduz eventos, e sim produz novos registros através da experiência dos instantes, ignorando o conceito do “filme histórico” minuciosamente projetado. O maior filme histórico é <strong>Aguirre, a Cólera dos Deuses</strong>, pois parte de uma empreitada para alcançar outra, igualmente genuína e histórica.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Tokyo! (2008)</title>
		<link>http://www.igndes.com/blog/2009/12/20/tokyo-2008/</link>
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		<pubDate>Sun, 20 Dec 2009 16:15:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>pedro</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[cinema]]></category>

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		<description><![CDATA[
Mesmo sendo composto de três filmes diferentes, Tokyo! surpreende pela unidade. Não falo de um nível de qualidade constante, pois as histórias podem ser elencadas da melhor para a pior: Shaking Tokyo, Interior Design e Merde. O que une as três propostas de diretores tão diversos quanto Bong Joon-Ho, Michel Gondry e Leos Carax é [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" style="text-align: center;"><a href="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2009/12/tokyo.jpg"><img class="size-full wp-image-342    aligncenter" title="tokyo" src="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2009/12/tokyo.jpg" alt="tokyo" /></a></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Mesmo sendo composto de três filmes diferentes, <strong>Tokyo!</strong> surpreende pela unidade. Não falo de um nível de qualidade constante, pois as histórias podem ser elencadas da melhor para a pior: <em>Shaking Tokyo</em>, <em>Interior Design </em>e <em>Merde</em>. O que une as três propostas de diretores tão diversos quanto Bong Joon-Ho, Michel Gondry e Leos Carax é a presença do realismo fantástico. Seja com menos (o namoro singelo do casal do primeiro filme) ou mais clareza (a criatura do esgoto é filmada por celulares e gera um fenômeno na mídia), existe um forte realismo, que, mais cedo ou mais tarde, é naturalmente transmutado em uma fantasia.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;"><a href="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2009/12/tokyo1.jpg"><img class="size-full wp-image-343    aligncenter" title="tokyo1" src="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2009/12/tokyo1.jpg" alt="tokyo1" /></a></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Quando essa fantasia diz algo metaforicamente, caso dos segmentos de Bong e de Gondry, existe certa homogeneidade. A mensagem politizada de <em>Merde</em>, por sua vez, soa bastante deslocada, e acaba estragando o que poderia ser mais um interessante curta-metragem. O diretor perde um tempo precioso mostrando grupos xenófobos e vieses nacionalistas, quando trazer um “monstro” humano aterrorizando a cidade mais atacada por criaturas radioativas gigantes já era uma ironia pra lá de suficiente. A insistência dessa pragmática “seriedade” torna a trama do quase-alienígena um cansativo panfleto. Sua limitação a temas tão concretos quanto xenofobia, direitos humanos e radicalismo foge muito da proposta da obra, subjugando o inusitado em detrimento do óbvio.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Na parte de Gondry, o elemento fantástico não é tratado de forma menos óbvia de jeito nenhum, entretanto existe um jogo inteligente na relação entre o lógico e o ilógico. Enquanto a vida da protagonista é singela e enquanto tudo faz sentido, sua presença é pesada e a narrativa não caminha. Por outro lado, quando tudo se transforma, essa estagnação é quebrada, sua presença se torna quase nula e ela fica feliz com isso. Embora a metáfora da cadeira seja pra lá de simples, é interessante como o roteiro diz “Sim, há espaço para tudo em Tóquio, até mesmo para gente que só serve para fingir que não existe”. A inversão da lógica se dá no contexto da capital, pois esta permite que o elemento fantasioso faça sentido, mesmo que através da metáfora.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;"><a href="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2009/12/tokyo2.jpg"><img class="size-full wp-image-344   aligncenter" title="tokyo2" src="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2009/12/tokyo2.jpg" alt="tokyo2" /></a></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">A idéia da cidade surreal nas entrelinhas também se apresenta com força no segmento do diretor coreano: nele, o entrelaçamento de texturas diferentes, tipicamente bem-feito na filmografia de Bong, surge forte. A pura estranheza da existência dos <em>hikikomori</em> já parte do ponto em  que <em>Interior Design</em> chega no final: o de que Tóquio comporta tipos e eventos fantásticos mesmo em sua lógica de metrópole. A idéia, já batida, da redescoberta do contato é mediada por muitos elementos intrigantes, como os botões da entregadora de pizza, a conversa ao mesmo tempo rude e afável, intrusiva e acessível com seu substituto e, claro, os terremotos.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">É estranho pensar como uma região tão populosa e densa de altos prédios pode se sujeitar a tantos tremores de terra. Nessa história, mesmo que nada seja destruído, o evento acaba tendo impactos fortíssimos em duas pessoas pouco usuais. Quando essa “diferença” se espalha, os terremotos apresentam um valor similar, mas bem mais atabalhoado de aproximação – o que só torna o final mais belo. É uma visão otimista, já que as pessoas, em face do perigo, acabam se juntando, até se misturando, como dois líquidos miscíveis. Bong cria uma fantasia não só narrativa e cinematográfica, mas também ideológica, na medida em que enxerga uma saída natural e abrangente para o distanciamento entre as pessoas. O que não acontece, claro: os grandes heróis da história são, de novo, os “estranhos”, que conseguem se desvencilhar das limitações sociais, com ou sem terremotos. Ao mesmo tempo, é como se existisse um ciclo constante entre o que é raro e o que é comum, e existe um equilíbrio complexo nessa relação.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;"><a href="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2009/12/tokyo3.jpg"></a><a href="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2009/12/1.jpg"><img class="size-full wp-image-400  aligncenter" title="1" src="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2009/12/1.jpg" alt="1" width="400" height="228" /></a></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Assim, apesar da irregularidade e da pluralidade dos discursos, fica a sensação de que o Cinema foi utilizado para uma ponderação imagética e narrativa do mundo à parte que a capital japonesa representa. Talvez o que haja de mais uniforme e essencial no projeto como um todo é que todos concordam que aquele lugar é palco para diferenças. Mais chamativa ainda é a superficialidade com que a cidade é tratada: quando a cultura é adentrada, ela o é através de um pensamento cinematográfico distinto. Os elementos fantásticos são jogados para causar o maior estranhamento possível, ao que a arte de cada um dos cineastas trata de ligar os elos em um corpo só, um todo calcado no realismo fantástico. Tóquio é um espaço visual/cultural que permite esses pensamentos e essas brincadeiras narrativas e estéticas, mas não soa como se impusesse essa visão surreal aos diretores. A cidade é aonde Gondry, Carax e Bong vão para unificar sua arte num contexto sócio-cultural tão distinto quanto suas visões.</p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Na Mira do Chefe (In Bruges - 2008)</title>
		<link>http://www.igndes.com/blog/2009/11/29/na-mira-do-chefe-in-bruges-2008/</link>
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		<pubDate>Mon, 30 Nov 2009 01:27:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>pedro</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[cinema]]></category>

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		<description><![CDATA[
Entre os indicados do Globo de Ouro 2009, Na Mira do Chefe figurava nas categorias de “Comédia ou Musical”. Estranhezas óbvias à parte (defina musical), essa definição é curiosa simplesmente por colocar o filme no gênero comédia. Qualquer um que o assista pode dar risada, pois é engraçado. Chamar de comédia, por outro lado, parece [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2009/11/in-bruges.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-409" title="in-bruges" src="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2009/11/in-bruges.jpg" alt="in-bruges" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Entre os indicados do Globo de Ouro 2009, <strong>Na Mira do Chefe</strong> figurava nas categorias de “Comédia ou Musical”. Estranhezas óbvias à parte (defina musical), essa definição é curiosa simplesmente por colocar o filme no gênero comédia. Qualquer um que o assista pode dar risada, pois é engraçado. Chamar de comédia, por outro lado, parece incoerente. Não existe quase nada que remeta a um <em>timing</em> cômico, seja o pastelão de Chaplin ou a elegância verbal de Wilder. As <em>gags</em> físicas são tolas, e o diretor Martin Mcdonagh, na cena dos obesos, ressalta isso com uma câmera estática, que faz Ray (Colin Farrell) e o homem entrarem e saírem do enquadramento na tosca perseguição. Os diálogos, por sua vez, são auto-explicativos:</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;">
<p class="MsoNormal" style="text-align: left;"><strong><em>Ray:</em></strong><em> Bem, vocês não vão subir lá.</em></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: left;"><strong><em>Homem obeso</em></strong><em>: Como é? Por quê?</em></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: left;"><strong><em>Ray:</em></strong><em> Quero dizer, é uma baita escada. Não estou de brincadeira.</em></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: left;"><strong><em>Homem obeso</em></strong><em>: O que você quer dizer, exatamente?</em></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: left;"><strong><em>Ray:</em></strong><em> O que eu quero dizer é que vocês são um bando de elefantes.</em></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;">
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">É o tipo de coisa que até poderia constar como humor negro, politicamente incorreto, mas Farrell se adequou a uma tendência forte do roteiro de não criar piadas. Ao dizer “não estou de brincadeira” Ray está sendo bastante sincero, e continua sendo quando chama o grupo de obesos de elefantes. Ele está apenas dizendo o que lhe veio à cabeça, e o humor, negro ou correto, não é sua intenção. Boa parte das comédias constrói seus personagens em torno das piadas, e não fica a sensação, como nesse filme, de que personagem e ator estão realmente alheios à comicidade. Para não ficar só no mau exemplo, Wilder valoriza diálogos cinematográficos e cuidadosamente confeccionados, oposto ao naturalismo visto aqui.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;">
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;"><a href="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2009/11/bruges1.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-334" title="bruges1" src="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2009/11/bruges1.jpg" alt="bruges1"  /></a></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Em outros momentos, as piadas existem, como quando Ken (Brendan Gleeson) vê Ray prestes a se matar. Apesar da ironia fina e do diálogo tragicômico, cada palavra faz sentido num contexto sério, mesmo que a situação seja hilária para quem vê. O roteiro é habilidosíssimo ao criar eventos em que os personagens não vêem graça – a discussão entre Ken e Harry (Ralph Fiennes) em Bruges, a outra entre este e Eirik (Jérémie Renier). Nenhum ator se porta como comediante, mas sim como gente normal – outra grande qualidade do filme, pois consegue desenvolver assassinos perfeitamente humanos depois de dar uma impressão forte de frieza. Os momentos em que eles têm a intenção de soar engraçados, especificamente a cantada de Ray em Chloe (Clémence Poésy), são entoadas da mesma maneira que as piadas despercebidas – no caso, para o protagonista passar a ideia de que é naturalmente engraçado.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;">
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;"><a href="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2009/11/bruges-3.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-335" title="bruges-3" src="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2009/11/bruges-3.jpg" alt="bruges-3"  /></a></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">No que é talvez o elemento mais interessante da obra, o anão Jimmy (Jordan Prentice) é mais uma das grandes distorções de gênero que o filme propõe. O fato de Jimmy ser um ator e fazer papéis de “anão bizarro” é um ataque tangencial ao uso de portadores de nanismo na comédia – e Prentice entende ambos os lados, por ter feito o papel principal em <strong>Howard: O Super-Herói</strong>. O personagem surge em situações comuns, e, na hilária cena das prostitutas, todos estão drogados, dizendo e fazendo absurdos igualmente. Seu papel na trama é ainda mais interessante por fazer parte da tragédia, talvez a única linha que o filme segue.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;">
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Auxiliado pela fantástica trilha de Carter Burwell, a trama se desenvolve tragicamente por causa de eventos do acaso. Tudo é orgânico e natural (excetuando-se a fixação de Ray em anões), e a sombra de Harry une todas as pontas de forma primorosa. Sua moralidade, sua visão apaixonada de Bruges, a reação à desobediência de Ken: ele se conecta à tragédia, ao que o roteiro é convicto em atestar, sutilmente, como a mercantilização da morte destrói muito mais vidas do que pretende. No fim, inocentes e culpados morrem, mas nunca pelos motivos corretos e/ou planejados – incluindo-se aí (por que não?) a família de Harry. Mais que perigoso, o negócio do assassinato é simplesmente confuso e desordenado. Assim, a naturalidade que Ken e Harry apresentam perante sua profissão é inviável, e é a ruína de todos os personagens.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;">
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;"><a href="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2009/11/bruges-2.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-336" title="bruges-2" src="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2009/11/bruges-2.jpg" alt="bruges-2" /></a></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Límpida e brilhantemente, o naturalismo e a tragédia se justificam como tons e sensações, que o diretor alcança com intensidade. As cenas de violência são realistas e brutais, não hesitando em tornar corpos em massas disformes e ensangüentadas – e mesmo assim, são cenas de partir o coração, tamanho o elo que os personagens alcançam. As perseguições desmantelam a tensão e a ação cinematográfica, os diálogos entre Harry e Ken quebram as pernas do suspense, e a comédia, tida como o gênero de <strong>Na Mira do Chefe</strong>, é desmascarada. Tudo que sobra é a destruição humana, que se faz sentir profundamente.</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.igndes.com/blog/2009/11/29/na-mira-do-chefe-in-bruges-2008/feed/</wfw:commentRss>
		</item>
		<item>
		<title>Amantes (Two Lovers - 2008)</title>
		<link>http://www.igndes.com/blog/2009/10/21/amantes-two-lovers-2008/</link>
		<comments>http://www.igndes.com/blog/2009/10/21/amantes-two-lovers-2008/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 21 Oct 2009 16:20:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>pedro</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[cinema]]></category>

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		<description><![CDATA[
É possível chamar de “Cinema romântico” um pensamento que demonstra acreditar no valor de cada um dos elementos que formam a Sétima Arte. É o que ocorre com o belo e denso Amantes, de James Gray. Apesar de uma suavidade inesperada, o filme apresenta, em cada cena e elemento cênico, um poder todo seu. A [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2009/10/amantes-poster.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-319" title="amantes-poster" src="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2009/10/amantes-poster.jpg" alt="amantes-poster" width="371" height="278" /></a></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">É possível chamar de “Cinema romântico” um pensamento que demonstra acreditar no valor de cada um dos elementos que formam a Sétima Arte. É o que ocorre com o belo e denso Amantes, de James Gray. Apesar de uma suavidade inesperada, o filme apresenta, em cada cena e elemento cênico, um poder todo seu. A primeira tomada já especifica o tom da arte que está por vir: a silhueta de Leonard (Joaquin Phoenix) contra um céu melancólico e azul que enche boa parte do enquadramento. O vazio é quebrado por um pássaro solitário, um detalhe minimalista que não tem receio de ser óbvio: esse é o jeito do diretor de abordar a solidão em uma imagem. A ruptura do primeiro corte é igualmente significativa: as roupas puxando o personagem – e a câmera – para baixo, indicando o peso do comércio do pai a lembrá-lo do fracasso de sua própria família.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;"><a href="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2009/10/amantes-loneliness.jpg"><img class="size-full wp-image-320 alignnone" title="amantes-loneliness" src="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2009/10/amantes-loneliness.jpg" alt="amantes-loneliness" width="378" height="158" /></a></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Claro que seria uma futilidade citar como tudo se desdobra cena por cena. O importante é ressaltar a importância que Gray dá a cada uma das peças de sua obra. Transparecem o uso singelo da música, a beleza estética da fotografia de Joaquín Baca-Asay, os pequenos significados velados, as questões mais abrangentes da história e o aproveitamento total da dramaturgia entre os atores. Não há sequer tomadas, e muito menos cenas de transição. A impressão de suavidade e linearidade não se dá porque nada é especial o bastante para se destacar, e sim porque tudo é especial. Tanto que não são momentos seletos que causam a forte impressão – ou é o conjunto de todas as cenas, ou a preciosidade de cada uma.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Gosto mais da ideia de cada cena ser uma joia por si só, mesmo que a potência do todo seja inegável. Quando enquadra uma conversa, o diretor não procura usar o campo/contracampo para fraturar a relação entre os personagens. Aliás, tomadas longas, como a visita de Michelle (Gwyneth Paltrow) ao apartamento de Leonard, facilitam o processo dramatúrgico para o espectador. A dinâmica dos atores, a estranheza de se conhecer alguém, tudo o que se desenvolve nos hiatos do diálogo se torna uniforme e acessível graças a essa liberdade do olhar. Da mesma forma, a intensidade aumenta não com cortes ou mudanças de tom, mas com recursos cênicos inteligentes, como quando Michelle encurrala Leonard nos enquadramentos limitados da cobertura do prédio, ao que ele tenta reverter a situação e a mulher se solta facilmente.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;"><a href="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2009/10/amantes-cobertura.jpg"><img class="size-full wp-image-321 alignnone" title="amantes-cobertura" src="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2009/10/amantes-cobertura.jpg" alt="amantes-cobertura" width="399" height="210" /></a></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Esse cenário, aliás, apresenta uma grande sorte de funções no relacionamento dos dois. Quase sempre, fica claro que o aconchegante amarelo do apartamento é deixado para trás pelo protagonista para chegar em um ambiente azul e gélido. A circularidade já fica latente nesse retorno à cor que caracteriza a tentativa de suicídio e o desengano emocional. Mais tarde, a construção de tijolos na cobertura ganha um valor de retiro, proteção e aconchego, com a câmera se aproximando de uma reconfortante Michelle e encapsulando o enquadramento. Mesmo assim, sobram as janelas, que vulnerabilizam o casulo ao deixá-lo exposto ao mundo mesmo quando Gray fecha o plano ao máximo.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;"><a href="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2009/10/amantes-safe-haven.jpg"><img class="size-full wp-image-322 alignnone" title="amantes-safe-haven" src="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2009/10/amantes-safe-haven.jpg" alt="amantes-safe-haven" width="415" height="172" /></a></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Um significado macro, presente em diversos outros momentos da história, escapa dessa imagem: a incoerência do romantismo na vida contemporânea. Tudo é funcional e correto nos mínimos detalhes, sejam as máquinas de tinturaria, seja o futuro profissional do protagonista. Até mesmo o agradecimento se torna mecanizado e ríspido, como o jovem Cohen e o suicida Leonard fazem notar. As tecnologias também complicam a vida do romântico. O celular, mesmo móvel, é usado para unir uma voz processada a uma imagem distante e a internet facilita a compra de <em>tickets</em> para a fuga de dois apaixonados, mas deixa o registro da compra salvo para qualquer um ver. Não há mais lugares românticos, então não é possível se livrar de um objeto altamente sentimental – ele quica na areia em vez de desaparecer nas profundezas sombrias do mar. Tampouco é possível perder produtos como as roupas da tinturaria sem ser repreendido.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;"><a href="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2009/10/amantes-praia.jpg"><img class="size-full wp-image-324 alignnone" title="amantes-praia" src="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2009/10/amantes-praia.jpg" alt="amantes-praia" width="389" height="159" /></a></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">A reciclagem é o que dita a conclusão da trama. O não sumiço do anel mostra a Leonard como os valores sentimentais se adaptam: ele não dava importância às luvas que Sandra (Vinessa Shaw) lhe deu, mas elas tinham, também, grande carga emocional. Assim, ele muda completamente de atitude, indo do romântico ao racional, aceitando o velho/novo sentimento e oferecendo o anel para uma velha/nova pretendente – em suma, segundo o diretor, perdendo o foco. Quando ele chora, o motivo não é claro: ele pode estar feliz por ter uma mulher que lhe faz bem, mas as lágrimas também podem representar a lamúria de um romântico assassinado. É possível que ambas as interpretações estejam corretas ao mesmo tempo, indicando grande complexidade no personagem. Sua mãe (Isabella Rossellini, espetacular) tampouco se decide entre a felicidade e a tristeza ao ver o filho de volta. Ela o amava como ele <em>era</em>, afinal.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;"><a href="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2009/10/amantes-meaning.jpg"><img class="size-full wp-image-323 alignnone" title="amantes-meaning" src="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2009/10/amantes-meaning.jpg" alt="amantes-meaning" width="400" height="166" /></a></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">O personagem de Elias Koteas, Ronald, é outro que explicita camadas de Leonard. Seu <em>affair</em> com Michelle é tenso, mas burocrático e mostra um homem firmemente pós-moderno. É sua atitude totalmente romântica que destrói o sonho do protagonista, que estava igualmente engajado num plano pouco racional. A mensagem é que quando uma pessoa emotiva se entrega de corpo e alma, não há, na verdade, nada de especial. Quando um homem correto faz a mesma coisa, o valor é muito superior. É como se o romântico não estivesse se esforçando em nada. O que a mulher não sabe, no entanto, é tudo de que Leonard abriria mão por ela – e fica a leve impressão de que Ronald tinha a mesíssima predisposição emotiva. No fim das contas, tudo se resolve bem. Ou seja, a sociedade é frígida, mas acolhe os que se arrependem de suas emoções e impulsos.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;"><a href="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2009/10/amantes-lover-one1.jpg"><img class="size-full wp-image-327 alignnone" title="amantes-lover-one1" src="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2009/10/amantes-lover-one1.jpg" alt="amantes-lover-one1" width="368" height="150" /></a></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Michelle não sabe nem sobre os sacrifícios de Leonard nem sobre sua vida encaminhada, de forma que o roteiro não a culpa e nem a justifica. Sua atitude foi equilibrada. É quase uma reação de pena por Ronald – o que também diz muito sobre a ideia que se tem do romantismo. Ao mesmo tempo, o protagonista vai no caminho oposto constantemente, fazendo as vezes do correto: ouve ópera para partilhá-la com a amada, compra um anel para firmar um relacionamento sério, vai ao hospital e cuida dela. Nesse caso, um plano amarelado o mostra oprimido pelo mesmo vazio da primeira cena, mostrando sua responsabilidade afetiva para com as perdas de Michelle. Mais tarde, a silhueta em contraluz da mulher surgirá como figura impessoal e aleatória: uma rima visual com os desconhecidos que o resgatam no início.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;"><a href="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2009/10/amantes-lover-two.jpg"><img class="size-full wp-image-326 alignnone" title="amantes-lover-two" src="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2009/10/amantes-lover-two.jpg" alt="amantes-lover-two" width="368" height="150" /></a></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Essa ilusão de impessoalidade é mostrada após o <em>bar mitzvah</em>, em uma sucessão de três planos belíssimos com Leonard desenhado como sombra. Enquanto a uniformidade da massa negra indica distância, os cortes aproximam. Gray sabe usar essas ferramentas com maestria, culminando no momento em que Leonard se “abre”, contando sobre a antiga noiva. O plano vai se comprimindo, conotando não uma abertura, e sim uma internalização. Sandra ouve os detalhes factuais, enquanto Michelle ouve os simples sentimentos do homem. Logo depois, a primeira transa do casal. O aborto é muito menos sobre o elo com Ronald do que sobre a relação com Leonard: o sexo dói, e isso, num romance, deixa implícita uma entrega completa. Mas é com Ronald que ela fica.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Mesmo com tanto sofrimento, Phoenix não se excede nem no que é o “clímax” do filme: seu “<em>go</em>” é quase sussurrado e destituído de força. Entretanto, sua capacidade emotiva é imensa. Já na cena em que conhece Sandra, ele desvia os olhos rapidamente por perceber em um segundo o que a mulher tinha em mente, e, mais tarde, anima-se sutilmente com a ideia de mostrá-la suas fotografias. Ele entende perfeitamente a proposta horizontal de James Gray, encarnando um personagem para o qual toda emoção é poderosa, da mesma maneira como toda a cena é cara para o diretor. Quanto à tragédia dos românticos, não há como ser mais direto. O formato de seu filme é uma defesa formal do Cinema apaixonado por seus próprios elementos. E, mesmo com muita sombra e água fresca para produções estéreis, o diretor não abre mão de seu preciosismo.</p>
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		<title>La Pluie</title>
		<link>http://www.igndes.com/blog/2009/10/08/la-pluie/</link>
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		<pubDate>Thu, 08 Oct 2009 16:13:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Julioam</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[music]]></category>

		<category><![CDATA[chuva]]></category>

		<category><![CDATA[musica]]></category>

		<category><![CDATA[pluie]]></category>

		<category><![CDATA[rain]]></category>

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		<description><![CDATA[Dando incio á serie de posts musicais, La pluie é uma lista de musicas para se ouvir durante quando o tempo chove...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A chuva sempre me fascinou, momento mágico, sempre me vem a cabeça uma imagem fixa, um tanto quanto melancólico, sentado na janela, vendo a chuva cair no quintal molhando &#8220;lá fora&#8221;, mais poetico fica o momento com uma trilha sonora, o que pode mudar totalmente o clima, de &#8220;Boulbar&#8221; um clima melancólico, á momentos alegres com Julie Andrews ou Frank Sinatra.</p>
<p><strong>Para se ouvir durante a chuva:</strong></p>
<p>Boulbar - De L&#8217;amour<br />
<br />
Massive Attack - Sam<br />
<br />
Yann Tiersen - Comptine d&#8217;un autre été: l&#8217;après midi<br />
<br />
James Blunt - Tears and Rain<br />
<br />
Damien Rice - Cold Water (@jardel)<br />
</p>
<p><strong>Inspiradas na chuva:</strong><br />
A chuva também foi motivo de inspiração para alguns compositores, baseados na violência de tempestades (como Debussy) ou na simplicidade de uma gota de chuva caindo no chão, dando um clima obscuro e romantico como o prelude de Chopin. Ou também, o que possui o clima mais pesado de todos, o réquiem do Mozart, onde as lagrimas se misturam com a chuva.</p>
<p>Debussy - Jardins sous la pluie<br />
<br />
Chopin Prelude No 15 (aka raindrop)<br />
<br />
Mozart - Requiem - Lacrymosa<br />
</p>
<p><strong>To make you fell better</strong><br />
Emilie Simon - Il Pleut<br />
<br />
BJ Thomas - Raindrops Keep falling on my head<br />
<br />
Frank Sinatra - Singing in the rain<br />
<br />
Julie Andrews - Favorite Things<br />
</p>
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		<title>À Deriva (2009)</title>
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		<pubDate>Tue, 29 Sep 2009 16:01:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>pedro</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Arte]]></category>

		<category><![CDATA[cinema]]></category>

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		<description><![CDATA[
O terceiro longa do promissor Heitor Dhalia é sobre crescimento. Partindo do ponto em que a primogênita de Matias (Vincent Cassel) e Clarice (Débora Bloch), Filipa (Laura Neiva), descobre que o pai tem uma amante, a obra segue para mostrar a vida da adolescente durante a separação dos pais. Enquanto os desentendimentos dos adultos vão [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" style="text-align: center;"><a href="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2009/09/a-deriva-poster.jpg"><img class="size-full wp-image-304 alignnone" title="a-deriva-poster" src="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2009/09/a-deriva-poster.jpg" alt="a-deriva-poster" width="252" height="369" /></a></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">O terceiro longa do promissor Heitor Dhalia é sobre crescimento. Partindo do ponto em que a primogênita de Matias (Vincent Cassel) e Clarice (Débora Bloch), Filipa (Laura Neiva), descobre que o pai tem uma amante, a obra segue para mostrar a vida da adolescente durante a separação dos pais. Enquanto os desentendimentos dos adultos vão crescendo, a menina começa a se envolver com o sexo oposto com curiosidade. O roteiro emparelha a descoberta sexual com o fim do casamento, e, nessa linha de interpretação, conclui-se de forma primorosa.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;">
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Aliás, subtexto é o que não falta em <strong>À Deriva</strong>. O próprio título já faz a atenção se dirigir aos aspectos menos explícitos da trama. Nesse quesito, a obra continua relativamente sólida. É belíssima a cena em que Filipa escapa do pedófilo, que agrega ao ato de flutuar o valor de maturidade emocional para se lançar em assuntos profundos. O roteiro cria um complexo conceito de adulto, detalhando o processo de crescimento que um jovem empreende em face de certas situações como a separação dos pais. Filipa se julga crescida, por conhecer o sexo, a família despedaçada, a mãe problemática, o <em>affair</em> do pai – mas ela sempre descobre que o mundo adulto é muito mais complicado. Esse mundo, por sinal, nunca é idealizado, e isso fica claro quando a mãe, iluminada por um egoísmo imenso, se livra da bebida.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;">
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;"><a href="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2009/09/a-deriva-adultos.jpg"><img class="size-full wp-image-301 alignnone" title="a-deriva-adultos" src="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2009/09/a-deriva-adultos.jpg" alt="a-deriva-adultos" width="450" height="300" /></a></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">No entanto, a montagem faz parecer que a mensagem não está clara. Ela prefere cortar dessa cena para Filipa, no bar, pedindo uísque para se enquadrar na imagem de adulto que conhece. A cena não é tola pois a menina não está sendo vítima da herança comportamental da mãe, ela sabe que está ‘amadurecendo’ por um meio reprovável. Por outro lado, esse didatismo está presente em inúmeros momentos – o pior deles é quando Clarice quebra os pratos –, e é uma concessão estúpida para um filme que tenta com tanta força criar significados nas entrelinhas. A metáfora da água, elemento principal de tudo que está fisicamente à deriva, também é escancarada demais, culminando na hedionda cena em que a lancha de Matias fica sem gasolina em alto mar.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;">
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;"><a href="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2009/09/a-deriva-a-deriva.jpg"><img class="size-full wp-image-302 alignnone" title="a-deriva-a-deriva" src="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2009/09/a-deriva-a-deriva.jpg" alt="a-deriva-a-deriva" width="408" height="289" /></a></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Dhalia, no entanto, quer mascarar suas metáforas. Quer que elas se passem por acontecimentos banais, que recebem organicamente seus significados segundos. Por isso há um breve plano de um barco rebocando a lancha, para mostrar que, sim, isso foi apenas um evento qualquer, e que, escondido nele, há algo mais. Mas não é assim na prática. A estrutura do subtexto é berrante, anuncia-se sem elegância, e a tentativa de trivializá-lo (até o pobre Cassel tenta mostrar inconsequência) dá a impressão de que o diretor tem vergonha dele. Berrante e deselegante também é a fotografia de Ricardo Della Rosa, que tenta desesperadamente mostrar como o mundo em volta é paradisíaco para se opor ao caos familiar. Sem ressonância alguma no roteiro, entretanto, esse comentário surge como algo pior que estilo vazio: surge como uma necessidade sofrível criar sentidos, sem notar que já há muitas coisas ditas, e ditas até a exaustão.</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;">
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;"><a href="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2009/09/a-deriva-beuaitufl.jpg"><img class="size-full wp-image-303  aligncenter" title="a-deriva-beuaitufl" src="http://www.igndes.com/blog/wp-content/uploads/2009/09/a-deriva-beuaitufl.jpg" alt="a-deriva-beuaitufl" width="274" height="346" /></a></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align: center;">
<p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Se o filme não é simplesmente ruim, é graças ao excelente elenco, totalmente sintonizado em cada personagem. Neiva, embora quase destituída de inocência, consegue deixar claro que ainda há um lado infantil habitando aquela alma calejada. Cassel consegue se despir em humanidade sincera, impondo todos os defeitos de uma pessoa comum como indispensáveis. Ele é refletido em Bloch de forma intensa, e ela não só aceita a inevitabilidade de seus egoísmos e mesquinharias, como também os projeta no rosto, mantendo-o crispado e tensamente resoluto. Embora todos os atores encontrem o tom emocional, faltou a Dhalia fazer o mesmo. Essa inconsistência remete à bela trilha sonora: por bem feita que seja, ela ressalta emoções que não estão lá, formando um fino invólucro sem preenchimento. O filme inverte o valor de subtexto e do drama central, exteriorizando o que deveria ser interno e internalizando – empalidecendo – o que deveria ser externo.</p>
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