Em uma entrevista, Ethan e Joel Coen disseram que a primeira cena de Um Homem Sério não tem conexão com o resto do filme, e foi apenas uma brincadeira à qual eles se permitiram. Uma declaração sem dúvida surpreendente, posto que não é difícil encontrar sentido metafórico e fabulesco na anedota. A história do possível espírito maléfico (“dybbuk”) que visita um casal à noite tem valor na filmografia dos cineastas por apresentar um impasse ardiloso. Se o visitante for uma entidade sobrenatural, sua presença maldita impregnar-se-á no destino dos anfitriões, mas se ele for um “Reb” (título não-rabínico dado a judeus ortodoxos), sua morte causará a desgraça dos dois.
Quando o ancião é apunhalado, o sangue demora para escorrer, e isso ocorre precisamente quando a mulher aponta quão estranho é que o homem não sangre. Não é necessário optar por uma das duas possíveis identidades do velho, embora haja bons motivos para se crer que ambas fariam sentido no contexto. A questão principal está na dúvida, no resultado de ações postas em prática em situações de confusão e incerteza. Na lógica interna de uma narrativa comum, as duas identidades são excludentes, mas, em Um Homem Sério, definir qual delas é a verdadeira seria apenas uma escolha supérflua sobre o caminho que levará à tragédia dos personagens. É nessa reflexão que a cena introdutória encontra sua relação com o resto da trama – e, além disso, com toda a produção dos irmãos Coen.
Por outro lado, é importante entender por que os diretores e roteiristas dizem que não há relação entre essa cena e aquilo que se segue, para além de uma óbvia questão narrativa. O elemento mais determinante da introdução é a aparente disposição do mundo para prejudicar a vida das pessoas – ou no caso, a aparente disposição do roteiro em prejudicar seus personagens. Esta proposta está mais que presente no filme, com armadilhas esperando o pai de família Larry Gopnik (Michael Stuhlbarg) em todo lugar. Temos (ou melhor, ele tem) a traição da esposa, Judith (Sari Lennick), a extorsão de seu aluno coreano, a invasão de terreno de seu vizinho, as cartas ofensivas ameaçando sua promoção na universidade, os “arranjos de moradia”, a doença e os desvarios criminosos do irmão Arthur (Richard Kind), sem contar os de seu filho Danny (Aaron Wolff).
É pertinente parar nesse ponto e ressaltar que Larry nada sabe sobre a maconha que o filho usa ou as ameaças que o adolescente recebe do valentão Mike Fagle, a quem deve dinheiro. Este segundo caso inclusive exemplifica como o filme, quase sempre, beira o cômico. São poucos os casos em que o roteiro chega a ser genuinamente engraçado, porque as situações cômicas nunca são alcançadas, e sim tangenciadas. É uma comédia de erros irrealizada. Mike sempre perde a corrida diária por causa de seu físico despreparado, e, como a dívida é secreta, ele não bate na porta de Danny para resolver o assunto mesmo que os dois morem na mesma rua. As situações com potencial para gargalhadas são evitadas tanto pelo roteiro quanto pela encenação, mas não sem antes se aproximarem perigosamente dessa graça.
O importante, porém, é que o pai se mantém alheio a todos esses problemas. Até mesmo a pesada intoxicação de Danny em seu Bar Mitzvá passa em branco por muita gente, evitando o pastelão. Afinal, todos parecem entender a situação do garoto como uma de medo, insegurança ou deslumbramento, o que explicaria a expressão atarantada, a hesitação e as olhadelas em volta. Em outras palavras, o garoto pode parecer maravilhado com a sacralidade do evento mesmo quando sua real sensação é de entorpecimento psicotrópico. Só por dizer, a cena não carrega sarcasmo, pois não há exatamente uma comparação entre as formas de assombro causadas pela maconha e pela religião – apenas uma explicação possível para a cena.
Entretanto, o que se deve notar é que a situação poderia ter degringolado para um festival de piadas grotescas, e se manteve em território relativamente sóbrio (com o perdão do trocadilho) para que as confusões não se realizassem. Detalhes como o pedestal que é colocado para Danny e depois tirado e a exclamação do homem que segura o pesado Torá também mostram essa sutil tendência para pequenas surpresas, sem que elas tenham impacto algum. Isso torna a reação atabalhoada do garoto totalmente compreensível. Pequenos erros de cálculo e intempéries estão presentes em todo momento, e tendem a ser ignorados. Já os grandes acidentes recebem imenso pasmo por parte de Larry, que vê nessa sucessão de acontecimentos uma incoerência com sua sincera vontade de se tornar um homem ideal perante a comunidade e HaShem.
O que mais chama a atenção é que tal semi-realização também se encontra nos insucessos do protagonista. As cenas em que algo realmente bombástico ocorre, como quando Sy Ableman (Fred Melamed) lança Larry repetidas vezes contra o quadro-negro ou a despedida de Arthur, são sonhos. É inegável que o protagonista passa por um bocado de provações ao longo da narrativa, mas, numa análise um pouco mais permissiva (ou distante) nenhuma delas chega a seus clímaces. A disputa com o vizinho pelo espaço gramado não implica nem em discussões sérias nem em um caso jurídico – esta última possibilidade é literalmente extinta no roteiro; as enrascadas em que seu irmão se mete são contornáveis; a mudança de casa é temporária, já que Sy morre; e o caso extra-conjugal de Judith segue lógica semelhante. Por fim, a ameaça ilógica, embora bastante real, que recebe do coreano e de seu pai para aceitar o dinheiro e aumentar a nota do aluno é anulada pelo próprio Larry.
Nesse momento que é a “conclusão” do filme é possível enxergar uma moral da história. Todas as situações difíceis pelas quais Gopnik passou foram se acumulando, mesmo que não tenham explodido, e o levaram a aceitar o suborno. É bem no instante desse ato reprovável que o filme se encerra, deixando a situação em aberto, mas indicando que a probabilidade mais forte é a de que tragédias imensas se abaterão sobre Larry e sua família. Mas a regra, já foi visto, é a abertura, a dúvida, como a identidade do velho esfaqueado na anedota. Assim, somos levados a crer que está em movimento uma vingança divina por aquele único e mísero ato incorreto (o plano se fecha na ponta do lápis, escancarando tanto sua pequenez quanto sua significância), mas talvez não seja. A dúvida não está apenas no final aberto. Afinal, o que pode causar a desgraça individual de Larry é a consulta que fez no início do filme.
Embora seja a primeira passagem da história dos Gopnik, essa visita ao médico, entrecortada com a introdução do tocador de música de Danny, não parece um evento importante. Já é possível entender por que o prólogo foi uma “brincadeira”: ele tira da cena de abertura sua condição propriamente inicial. Usando a já explicitada relação com a trama principal como desculpa, a anedota acaba roubando a importância da consulta médica, e o desentendimento entre Danny e Mike Fogle, constantemente ressaltado como conflito a ser resolvido, também a subtrai de algo de sua invisível importância. No fim, a possível ruína de Larry é uma questão clínica ignorada até então, e os vinte dólares de Fagle se transmutam à total insignificância perante a ameaça do tornado. Nesse momento, a câmera enfoca a orelha de Danny, e o áudio também se volta para o que toca no fone: “Somebody to love”, de Jefferson Airplane. A canção soa imprópria para o momento, mas é ao som dela que termina o filme. Afinal, é o que tocava no aparelho do garoto, tornando todo o resto inaudível.
Por que focar nessa música pelo simples motivo de ela estar tomando conta dos ouvidos de Danny? Seria porque o Rabino Marshak fala da banda ao receber Danny? A possibilidade mística é forte, mas a reflexão essencial é sobre como usar o foco no cinema. Por que dar importância a certos elementos, e deixar outros em segundo plano? Por que os mais ressaltados devem ter maior impacto na narrativa? Aqui não é assim: os eventos mais relevantes à trama, no final, são ativamente destituídos de relevância através de uma série de técnicas. Os pequenos obstáculos na vida de Larry ganham grande destaque, embora não desemboquem em tragédia. Portanto, é expressiva a atitude dos irmãos Coen de não planificar a dramaturgia, como em Onde os Fracos Não Têm Vez, para que descubramos as forças motrizes por conta própria em meio à confusão perceptiva. Como grandes estetas do caos humano, os cineastas deliberadamente drenam a atenção do que, afinal, mais importa, e a transferem para pequenas intempéries que pouco ou nada afetam os personagens – até a relação de Judith com Ableman se torna um detalhe menor durante o Bar Mitzvá de Danny.
Como simulacro de vidas humanas, o filme beira a perfeição. Sem julgamentos morais ou códigos de conduta atrelados, é típico das pessoas se preocuparem com as pequenas desgraças do dia-a-dia. Assim, é difícil imaginar de onde surgem os baques mais violentos, e por que eles são tão repentinos. Punição divina? Talvez. Lembrando que a honestidade de Danny ao tentar devolver o dinheiro de Fagle é fútil – o tornado, força da natureza, não é seletivo para suas vítimas, mas se ele for a mão de HaShem, pode estar punindo Larry. Esta proposta narrativa casa com o exercício de foco dramatúrgico e visual e intensifica a ambiguidade de inúmeros momentos. Por exemplo, quando Arthur sai do lago e diz que é um ótimo dia para se refrescar na água, um zoom-in grandiloquente enaltece a tomada com tamanho estardalhaço que o ímpeto é procurar pelo grande significado dela. (Da mesma forma, a canção de Danny pode fazer algum sentido no contexto, mas é tão desconexa no instante que causa a mesma sensação da cena de Arthur.)
Assim, o que une a cena introdutória e a trama principal não é a presença de ardis dos quais é impossível escapar (a identidade do visitante noturno na primeira, a chantagem dos coreanos e a constatação de que “HaShem nem sempre está certo” na segunda), e sim a proposta narrativa ousadíssima. A anedota soa como um curta em homenagem aos filmes anteriores dos Coen, e Um Homem Sério aponta para uma direção ainda mais desorientadora, pois não faz apenas um cinema cujo conteúdo exprime estranhamento imediato. O caos está ainda nos sobressaltos da narrativa e da mise-en-scène, que não indicam necessariamente elementos mais bizarros ou mesmo mais relevantes. Se antes o desafio era adentrar o mundo dos cineastas e sua (falta de) lógica particular, agora somos convidados a nos digladiar contra a própria ferramenta que permite possível a apreensão da história.








