Um filme que apresenta, em sua cena inicial, toda a sua temática e estética chama a atenção e prepara a percepção para todo o resto da experiência. O intuito de impressionar não deve ser motivado por si próprio, mas sim por uma obra que tenha nessa introdução apenas um rascunho do que será desenvolvido. A cantiga improvisada que abre A Teta Assustada pode ser de uma violência incomparável a tudo que se segue, pois é exatamente um ponto de partida de onde divergirão todos os vários temas. O relato e a sequência dos acontecimentos têm sua brutalidade diluída, reduzida a pré-conflitos, terrores antecipados e mistificações distrativas.
A lenda da teta assustada é uma forma de lidar com sofrimentos hediondos demais para serem abordados diretamente. Fausta, mais que isso, é vista sob um viés de enferma e amaldiçoada para justificar sua condição psicologicamente frágil. As duas falam em dialeto quéchua (que o tio e os outros não entendem) e cantarolam, separadas de todo o mundo, sozinhas no quarto. As músicas falam sobre as torturas horrendas que a mulher passou enquanto a filha estava no útero. A “herança maldita” não é passada pelo leite, mas sim por esses versos, que obrigam a jovem a saber como foi sua gestação. Todos os diálogos entre mãe e filha se dão assim, confundindo a dor imensa com o lirismo de uma vida comunicada através de música.
A idosa perdeu as travas na língua e soltou as lamúrias para Fausta, que ouviu tudo e perdeu a força para lutar. Ela não julga ter a capacidade de repelir qualquer homem, e parte do pressuposto de que, um dia, vai ser violentada também. A paranoia a obriga a enfiar a batata na vagina, no que é uma bela metáfora sobre a proteção e o desenvolvimento de um filho. Tal postura a leva a adotar para si o preconceito de vítima eterna, seja nas cicatrizes psicológicas oriundas dos versos da mãe, seja na doença que a comunidade diz que ela tem. A linha entre trauma e superstição é clara, mas a conotação negativa desta surpreendentemente inexiste.
Há, claro, menos (in)formação disponível para os que aceitam a perspectiva do distúrbio passado pelo leite materno. Por outro lado, não há ignorância arrogante a obstruir a medicina, e sim uma explicação mais palpável para a personalidade de Fausta. Sua introspecção a leva a se comunicar através de crises de saúde e mentais, e sua opção por guardar tudo em si leva todos a acreditarem que há uma enfermidade por trás. Essa visão não contempla toda a realidade, muito pior do que muitos imaginam, mas não impõe sobre a protagonista uma posição humilhante. Seu modo de ser alimenta a crendice para, sem consciência, se permitir ocultar a excruciante verdade.
O processo de transmutação de uma dor em algo poético é fundamental. Ao narrar os abusos do passado, a mãe está, em certo grau, embelezando o lamento com um ritmo e alguma simetria, mascarando a narração seca com uma melodia improvisada. Esse enquadramento da realidade é paralelo à explicação geral que a teta assustada dá a um trauma profundo demais para ser esmiuçado ou comunicado. Tudo aquilo que não encontra expressão objetiva que faça jus à sensação é transformado em paradoxo expressivo. Apenas a brutalidade do embate entre a calma e a cadência do cantarolar da idosa e o sentido das palavras que profere é capaz de reproduzir tamanha obscenidade – e a diretora Claudia Llosa faz, de fato, um dos momentos mais difíceis de assistir do cinema recente.
O que torna o filme ainda mais vibrante é uma falha. A relação de Fausta com Aída é desenvolvida de forma previsível e maniqueísta, caindo em um clímax de novela. Ainda assim, representa uma outra transformação de uma angústia em algo agradável (ou melhor, sublimado como Arte): de uma realidade social para uma melodia para o piano. Se Llosa fez a mesma coisa que a ricaça com A Teta Assustada, está assumindo a culpa pelo processo; se não, está criticando os cineastas que o fazem; e, em ambos os casos, a roteirista confunde a realidade cruel com uma demonização feia que nada adiciona à discussão. Porém, a passagem serve, de uma forma ou de outra, como reflexão do cinema do Terceiro Mundo em sua apropriação artística de situações sociais.
A inclusão de tal comentário no filme é relevante porque muito do que é comentado extrapola a especificidade nacional e étnica. Afinal, aquele não é o único povo que despende tanta importância, tempo e dinheiro para o casamento e relega os mortos ao descaso. Nem é o único que mascara as mais atrozes feridas com um misticismo que pretende explicar tudo. Tampouco está sozinho ao colocar as mazelas sócio-econômicas sob o escrutínio das lentes de uma câmera. Llosa parece evitar críticas e propostas de solução fáceis, focando seu trabalho apenas na cuidadosa constatação (e talvez na tomada de culpa) de como uma sociedade e um Cinema andam lado a lado e como dialogam entre si.








