Em mais de uma cena, a câmera de Chanwook Park se desloca levemente para o lado, deixando os atores num canto e um espelho no outro. O que se vê é o reflexo do(s) vampiro(s), o que contraria mito original. Porém, sem motivo aparente, a superforça, a indestrutibilidade, a vulnerabilidade ao sol e a necessidade de beber sangue se mantêm intactas na vida e morte das criaturas. Ao mesmo tempo, pequenas distorções são inseridas como pequenos comentários sobre a lenda universal: a batina do padre ganha um valor gótico que remonta a Drácula e outros filhos da noite, e o vampirismo não é o vírus, e sim o agente que o combate. Mais que uma mera adaptação arbitrária do que é mais cool para personagens sugadores de sangue, como é o caso dos seres das séries Blade e Anjos da Noite, em Sede de Sangue há uma busca bem diferenciada.
Quanto ao reflexo, não há muito segredo, afinal, a presença dos espelhos não é anunciada dramática ou poeticamente, sendo apenas um detalhe que calha de ser mostrado em certos cenários. Claro, pode-se argumentar que são importantes para checar a recessão do vírus e, principalmente, para manter aqueles personagens sobrenaturais físicos e mais ou menos humanos (o que é coerente com a alimentação, sempre carregada de forte abuso corporal), mas a dramaturgia nada sutil de Park não realça o elemento. É, numa interpretação mais geral, apenas uma amostra de que as regras que comandam as entidades vampíricas obedecem a uma lógica interna bastante definida, e que, dentro desta, a inexistência de reflexo não tinha valor.
De igual maneira, a força sobre-humana, a invulnerabilidade e o “ritual” (que aqui perde completamente esse significado) de beber sangue de pessoas ajudam a estabelecer, de uma vez por todas, o vampirismo não como fim, mas sim como meio. Park tem elaborado em seu Cinema a distância que um homem ou uma mulher é capaz de alcançar da “humanidade” quando tem algo em mente. Aqui ele evita humanos, para estudar a perda de preceitos morais e éticos para forças muito maiores que sentimentos, obsessões ou até vícios – no caso, essas forças são as necessidades biológicas. Daí se depreende com clareza o motivo pelo qual o vírus é curado pelo vampirismo.
A lenta morte que a doença causa faz com que o padre Sang-hyeon (Kang-hoo Song) se agarre à vida de forma quase instintiva. No processo, porém, ele vai descobrindo que os pecados que reprimiu ao longo de sua vida têm de ser liberados juntamente com a sede sanguinária – o sangue de outras pessoas traz seus desejos carnais com ele. Como vampiro, o protagonista descobre algo que é considerado um sentimento do Homem, a volúpia, embora seja visto como um vício e não uma virtude. No entanto, o filme não trabalha apenas o conceito moral de humanidade, passando também para a condição que nos difere dos animais, toda e qualquer manifestação de pensamento que traga um valor cultural, positivo ou negativo. O humanismo, um termo melhor para definir o julgamento moral de certos atos, é deixado de lado como acidental e ocasionalmente desastroso.
O padre empreende uma busca humanista: ele está certo de que seria injusto morrer se foi pelo bem das pessoas que ele agiu. O conceito de justo ganhará uma importância magnânima ao longo da narrativa, sendo lentamente atrelado à vingança, tamanhos os abusos sofridos pelos humanos da trama. A simples possibilidade de haver justiça é uma resposta aos sentimentos humanos, que vão sendo suprimidos com cada vez mais ferocidade. A chance de um ato de boas intenções sair pela culatra e causar mal é constante no filme, e o inevitável se sobrepõe à injustiça. Por isso a reação de Sang-hyeon à comunidade de crentes em sua santidade é incerta, pois ele não sabe até que ponto faz o bem ao ter aquela imagem – tal incerteza será importante numa breve cena no final.
Falando em brevidade, é essa a linha que Park parece seguir ao longo do filme todo para reforçar a estranheza. Os primeiros minutos são fragmentados com violência, deixando a introdução do filme muito similar ao que se vê no trailer. Há também uma distorção espacial, pois os lugares e cenários costumam se confundir em meio à edição tresloucada, quase arbitrária. O tempo e o espaço não importam. É a prova estética, cabal, de que não há enfoque nas pessoas, uma vez que limites espaciais e temporais são inexistentes para uma espécie que pode dar saltos de vários metros e resistir a quase qualquer tipo de morte. Esta, aliás, se dá com a luz do sol apenas para que um fiapo de humanidade reste na devastadora crônica de monstros da trama.
O desprezo pelo Homem se dá em vários níveis. A brutal montagem não dá margem para dúvidas, como na cena em que Tae-ju (Ok-bin Kim) passa um dia vazio de trabalho em menos de cinco segundos. A demente misè-en-scene do diretor ressalta, através de movimentos de câmera rebuscados, distanciamento, violência física e a mera seleção de o que é mais enfocado, um desdém completo por tudo que os seres humanos fazem ou pensam. A imagem que fica é de demagogia, de repressão de instintos reais com base em preceitos artificiais, como a própria Tae-ju fazia: a ameaça ao marido adormecido é uma repressão de seus desejos mais íntimos. Quando a demagogia não domina a pessoa, ela é regida pela insignificância, pela falta completa de impacto no mundo – que, diga-se, Sang-hyeon tenta manter até perto do final. É de se notar que até mesmo uma aparição do além é pouco mais que cômica e nauseante. Só é aterrorizante para quem ainda está preso à fragilidade humana e pensa que uma pessoa pode realizar algo pior que uma ameaça de violência.
Assim, o filme se aproxima do subestimado (aliás, desconhecido) Vôo Noturno, dirigido por Mark Pavia. Ainda é um filme que se preocupa com o que é mais cool (como o não-reflexo do vampiro urinando sangue), mas a intenção primeira é a perda da humanidade, num contexto mais geral, que um ser sobre-humano (ou seria pós-humano?) pode causar em nossa espécie. Em Sede de Sangue, o conceito é mais específico: humanidade é o conjunto das ações boas e ruins de que só nossa espécie é capaz. Curiosamente, a única que resta com o poder de fazer algo significante, não banal, é a sogra de Tae-ju, inválida e imóvel. Há sempre uma repressão, um impedimento acidental ou convencional, que define o que é a humanidade clássica. Park arrebenta com estrondo essas definições, dando ao ser humano todas as suas características intrínsecas, seja através de uma necessidade fisiológica que leva a outras, seja através da oposição entre o que é humano e o que é um “monstro” liderado por instintos animais.
Curiosamente, o ato final do padre é de dupla humanidade: além de se entregar ao suicídio, oposto à sobrevivência ferrenha que tinha direcionado sua vida até então, ele permite que a mulher assista à morte dos dois. Ele dá o privilégio à mulher paralisada para ter sua vingança, para ver a injustiça e a podridão serem extirpadas em frente a seus olhos. Ou seja, há uma permissão para a humanidade real, por cruel que seja, ter algum refresco após uma tirania tão absoluta das criaturas “sobrenaturais” – ou melhor, não-humanas, em todos os sentidos concebidos por Park. Esse castigo final é o que há de mais centralmente humano no filme todo, tanto como causa quanto como consequência. Se atos bons podem ser revertidos em maldade, e necessidades malévolas transformadas em bondade, o humano é aquele que age como um, e só.








