Por baixo da história de superação de Billy Elliot, existe uma tragédia bastante peculiar, de uma comunidade inteira. Não só o roteiro de Lee Hall e a dramaturgia de Stephen Daldry evitam arroubos de esperança (ocasionalmente soterrando essa sensação sem sutileza), como a amargura da cidade de Everington não é abandonada até alguns minutos no fim da projeção. É um momento breve, e também o clímax para o personagem-título. Para os habitantes da cidade, por outro lado, as chances de vitória já foram solapadas, deixando com Billy e seu afastamento a única possibilidade de libertação. Essa ilusão de avanço nunca obstruiu a realidade de que as mudanças devem convergir e, se iniciadas longe do ponto central, precisam se deslocar até ele.
Everington há de ficar estagnada em seus vícios e limitações, e o que nela há de livre e evoluído foge da periferia para seu centro de atração – atraído, no caso, pela cultura. Ela não tem ímpeto para chegar a áreas distantes, nem pode se dar ao luxo de alargar tanto seu foco. O elitismo desse fato é visto em outro sentido também, com atenção especial a ambos. De um lado, nota-se que a busca por cultura e por proteção de minorias não cabe numa sociedade em que a sobrevivência é um desafio diário; do outro, esse instinto tornaria todo avanço cultural fútil, uma vez que toda uma tradição de pensamento coletivo deve ser transformada. Não é arrogância, mas uma constatação lógica sobre que papel ocupam certas comunidades, encarnado na Sra. Wilkinson (Julie Walters), a professora de ballet.
A subtrama em questão está no pano de fundo, quase que uma segunda linha narrativa. É um subtexto narrado com o mesmo vigor dispensado à trajetória do protagonista, e é crucial em vários níveis. A greve primeiramente surge como uma tentativa de mudar as condições dos mineiros, uma revolução não muito diferente da do garoto. A dele parece se beneficiar dos esforços da outra, pois os problemas do Sindicato encobrem suas escapadas. O antagonismo dá as caras quando os esforços de Billy são freados pelas complicações da revolta operária – embora, mesmo assim, Daldry coloque seu jovem ator no alto do muro, acima dos sindicalistas.
Por fim, a derrota de uma das propostas de mudança dá o tom amargo do filme, que desfaz de vez a visão periférica que, afinal, o dominou. O enfoque é em Everington e na impossibilidade de qualquer transformação. Há sutis melhorias no tocante à aceitação do bailarino pelos convivas, mas a economia, a mentalidade coletiva e as condições de trabalho seguem estagnadas. Usar os esforços dos grevistas como exemplo de revolução fracassada não é uma escolha ideológica, mas dramatúrgica e até mesmo histórica, mesmo que a angústia da comunidade não seja amainada. Afinal, é com o esforço de gente sofrida como essa que um único homem pode se tornar algo mais a quilômetros de distância dali.
Esse determinismo social remete a Fellini, mas segue por um caminho distinto: enaltece as chances do indivíduo que luta contra as regras e permite que ele saia do círculo vicioso, ao mesmo tempo em que ressalta a tragédia do coletivo que sufoca. A comunidade de Everington é tão incapaz de superar seus preceitos quanto os protagonistas do cineasta italiano, pois o elemento externo, opressor (a nação, no primeiro caso, e a sociedade local, no segundo) deixa uma marca indelével. O indivíduo (seja Billy ou seu amigo gay, Michael), por sua vez, faz de sua marca uma possibilidade de emancipação do lugar de onde veio – seria um pré-Fellini, mostrando como a peculiaridade do personagem o levou a um lugar em que ele é agressivamente aceito.
A atenção do diretor para suas imagens dá mais um diferencial para essa história de superação trágica: a proximidade do chão em certas cenas indica um peso para baixo, e o início, com o padrão da parede quebrado pela figura de Billy, são idéias simples mas significativas no escopo visual em que Daldry trabalha. Além disso, a beleza e força de momentos como o desafio dançante ao pai e a descrição dos sentimentos ao dançar é bem maior que sua obviedade, alcançando uma singeleza sincera. No entanto, não é só de mensagens e resultados previsíveis que o filme é feito. Hall e Daldry evitam cair em frases feitas e em conflitos banais, como se pode ver no anúncio da Sra. Wilkinson aos Elliot e a conversa dela com Elliot pai, cenas sem caminhos esperados nos diálogos e na encenação.
Tal dedicação em caminhar fora da rota sem perdê-la de vista é exatamente o que traz pontadas constantes de tristeza a um potencial feel-good movie – como é perceptível no riso nervoso de pai e filho ao falarem do quarto deste. A ambientação do filme (Everington) é abandonada apenas quando a esperança para ela já está perdida. Acompanhamos, então, a fuga da evolução cultural e social em direção a um local mais adequado – é interessante, particularmente, como a orientação sexual de Billy é de pouca ou nenhuma importância para o roteiro. A tragédia dessa periferia é contraposta ao sucesso do centro cultural na forma de um lamento, sem esperança de remediação.








