Dolls (2002)

Por pedro. 06:29:51+0000 February 26, 2010. :: Permalink :: Categoria: cinema

Todos os personagens de Dolls vivem em função de um único elemento, essencial em suas existências. O fã Nukui (Tsutomu Takeshige) dedica todo o seu tempo, seja o descanso ou seu trabalho, ao objeto de adoração, a cantora Haruna (Kyôko Fukada); o mafioso Hiro (Tatsuya Mihashi) abandonou sua amada Ryoko (Chieko Matsubara), mas não a [...]

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Todos os personagens de Dolls vivem em função de um único elemento, essencial em suas existências. O fã Nukui (Tsutomu Takeshige) dedica todo o seu tempo, seja o descanso ou seu trabalho, ao objeto de adoração, a cantora Haruna (Kyôko Fukada); o mafioso Hiro (Tatsuya Mihashi) abandonou sua amada Ryoko (Chieko Matsubara), mas não a esquece, ao passo em que ela é irrestritamente devota ao amante perdido; os mendigos Matsumoto (Hidetoshi Nishijima) e Sawako (Miho Kanno), por sua vez, não têm um amor absoluto por uma pessoa, tampouco um ao outro. Ambos, porém, possuem um mesmo objeto de obsessão infindável: o fio, físico, que os une. A corda vermelha dita suas vidas de forma bem literal: se um obstáculo os enrosca, eles têm dificuldade de seguir em frente. E o caminho é sempre para frente, sempre andando em direção a algo que não se sabe o que é.

Essa falta de objetivo tem a mesma frouxidão do elo, que se arrasta molemente atrás dos dois e raramente é levado à tensão. É uma bela metáfora sobre a uma relação estagnada e sem sentimento, focada apenas naquilo que os une – seja um laço físico ou a instituição do matrimônio. O arco morto que é formado atrás deles só serve para causar pequenos trancos e impedir o tedioso e senil passo em direção a lugar nenhum, e nem mesmo essas pausas causam qualquer impacto no casal – o andar não tem nenhum valor de movimento. A conexão não adiciona nada e nem os torna mais próximos, servindo apenas como uma melancólica impossibilidade de se afastar. Em comparação com as outras duas histórias, fica a impressão de que isso é bom, pois a distância causa tristeza e não raro impossibilita a reconciliação.

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No entanto, falta intensidade ao amor lânguido que Matsumoto e Sawako vivem. Os erros cometidos ao longo da vida dos personagens (o desprezo de Hiro, a timidez de Nukui) não são postos em xeque, pois têm suas conseqüências inescapáveis. Além disso, só com a distância os personagens conseguiram reconhecer o valor das pessoas às quais tanto queriam. Os momentos que passam em sua presença não são redenções nem compensações para a vida de separação, e sim momentos novos de imensa voltagem emocional que não seriam capazes de vivenciar em outras circunstâncias. Eles não vivem re-uniões únicas na vida apesar dos anos de afastamento; eles as vivem por causa do afastamento. Mesmo assim, Takeshi Kitano mantém os reencontros triviais e suaves em tom, atestando que aquilo é o natural dentro da falibilidade humana. As pessoas só sabem viver em altos e baixos.

Voltando aos mendigos, a diferença é fácil de notar: não há altos e baixos em suas vidas. Há pequenas tensões, como quando ele puxa uma Sawako hipnotizada pela vista, mas nunca algo que mude a situação. No filme, são os que recebem mais tempo de projeção: a ruptura ocorre cedo, e a reconciliação física é bastante rápida, mas a frieza emocional se mantém. Embora o retorno de Hiro a Ryoko e o encontro de Nukui e Haruna também marquem uma aproximação sensorialmente manca, a privação não é tão completa quanto a do casal amarrado.O fã está meramente cego, mas não se permitiu perder a visão sem ter gravada a imagem da amada, então é só um reles detalhe que torna o encontro incompleto – e melhor do que seria na vida real, já que a cantora está com uma atadura que a enfeia. Já o mafioso usa a máscara do anonimato para se aproximar do amor perdido, talvez evitando muito do drama que sua identificação geraria e ganhando um almoço – como se ela trouxesse uma nova possibilidade de amor. A não-completude, nos dois casos, torna tudo melhor do que seria se os sentidos e verdades fossem expostos.

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A relação incompleta que Matsumoto consegue com sua amada está aquém em termos de contatos novos e velhos – está presa num presente modorrento, sem futuro e sem a espontaneidade conquistada no passado, que se encontra morto e esquecido. Eles estão atados por um meio físico, bruto, que nada tem a ver com sentimentos. A esperança vai se introduzindo através de elementos sutilíssimos: em certo momento, o arco que se arrasta começa a trazer folhas caídas consigo. A ligação finalmente consegue agregar algo, folhas mortas que sejam, no caminho. Na neve que encontram logo depois, as pegadas marcam sua passagem, como que dando significado à presença física dos dois, desde o início descorporizados como um mito distante. Esse é o primeiro passo para uma noção completa da presença de um para o outro.

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Ao encontrarem duas belas roupas penduradas num varal, o sentido vai se tornando mais forte; a idéia de par, de dupla contido nas vestimentas é incorporado ao casal que as veste. Os rastros se tornam maiores, largos, reforçando a fisicalidade e dando a impressão de que a corda perde a importância como objeto de união forçada. As memórias retornam num fluxo, e o abraço tem um peso tão intenso pois prescindiu de um imenso tempo para se viabilizar. Matsumoto demora a entender, tamanha a discrepância entre o reencontro físico e o emocional. O amor é pleno, talvez mais intenso que o de Nukui e Haruma, ou o de Hiro e Ryoko, pois enfrentou dois distanciamentos, duas trajetórias de solidão e duas momentâneas impossibilidades de reconhecimento.

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A tragédia se completa em todos os três casos, em belíssima coerência a cada particularidade. Nukui e Hiro morrem por causa de decisões que fizeram no passado, mas isso só ocorre na ressaca de seus respectivos reencontros, indo do extremo alto ao extremo baixo de forma irrefreável, irresistível. A escolha de ambos foi intensificar o sentimento, mas isso só pode acontecer quando o final está próximo. O chefão não pode fazer nada para redimir o sofrimento que causou, e o fã não pode fazer nada para ser notado por sua deusa na condição plena de deusa. Matsumoto e Sawako, por sua vez, têm na própria relação o objeto de obsessão, e isso também os joga na escatologia quando o já desnecessário elo físico suspende suas mortes e os deixa na mais completa estagnação. Tal qual bonecos que se movimentam sob o controle de títeres ocultos, ninguém escapa de seu destino na obra de Takeshi Kitano.