Salve Geral (2009)

Por pedro. 10:14:49+0000 January 7, 2010. :: Permalink :: Categoria: cinema

Muito se fala sobre a defesa que Salve Geral faz do Primeiro Comando da Capital e de seus atos no fatídico “dia em que São Paulo parou”. Passando reto pela incoerência de cobrar senso crítico ao conhecer um movimento ideológico e seus idealizadores, as reivindicações podem fazer sentido: o filme de Sérgio Rezende é maniqueísta [...]

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Muito se fala sobre a defesa que Salve Geral faz do Primeiro Comando da Capital e de seus atos no fatídico “dia em que São Paulo parou”. Passando reto pela incoerência de cobrar senso crítico ao conhecer um movimento ideológico e seus idealizadores, as reivindicações podem fazer sentido: o filme de Sérgio Rezende é maniqueísta em diversos momentos e, na grande maioria, os maus (caricatos) são os policiais e a Lei. Daí é fácil deduzir, aproximar ou resumir que os integrantes do PCC são os heróis oprimidos da história em questão, e aí reside um erro grosseiro.

“Oprimidos” são tudo que os bandidos não são. De dentro de suas celas, ou seja, com grandes limitações, eles controlam uma organização rápida, abrangente e eficaz, e não raro têm os homens da lei nas mãos. Esse aspecto é bem ilustrado e entra em contradição óbvia com a proposta de liberação dos presos injustiçados. Não é estar encarcerado ou livre, mas ter poder e dinheiro ou não ter que determina quem domina quem – surpreendentemente, os prisioneiros comuns são tão massa de manobra quanto “aqui fora”. O título do filme traz esse subtexto, acenando para algo muito mais abrangente que os ataques de maio de 2006.

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A eficácia do grupo também é ocasionalmente posta em xeque, pois também está sujeita ao controle da chantagem e da corrupção. A Ruiva (Denise Weinberg, excelente) não deixa dúvidas: sua lealdade está com quem dá mais benefícios, e uma viagem para Montevidéu é muito mais vantajosa que o 13º que ganharia se fosse empregada pelo governo. O PCC é um grupo fundado com base no “nosso jeitinho”, então é automaticamente mais propenso a atrair entusiastas que o sisudo e correto sistema. O questionamento não é sobre a validade do partido, e sim sobre a evidente vantagem que uma organização de funcionamento tão diverso da das instituições legítimas tem perante os olhos da sociedade.

O brasileiro comum, fica claro, não tem escolha senão seguir os que prometem mais possibilidades vantajosas. Lúcia (Andréa Beltrão) procura ajudar seu filho, mesmo que sue crime tenha sido sério, e em seu desespero não vê saída na lógica cristalizada dos tribunais. Entretanto, ela é imune à doutrina do Partido – é grata pela ajuda e faz sua parte nos tratos, mas não se filia. O mesmo ocorre com seu filho Rafael (Lee Thalor), que só aborda os chefões para conseguir algo, e só consegue usar o poder universal do dinheiro. O esquema se fecha com os fornecedores temporários e os permanentes, e o jogo de interesses transparece em ambos os casos. A tão criticada idealização só se mantém no texto do manifesto e em seus seguidores – os outros apenas querem se safar.

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Rezende não evita a obviedade ao mostrar a face podre de ambas as facções em oposição. A escala com que o faz, porém, chama a atenção: não é apenas a polícia e os bandidos que aparecem em retratos ingratos, mas inúmeras seções da sociedade brasileira. A lista de personagens é extensa e o andamento da trama é veloz, comprimindo tudo em duas horas que parecem três – o que é um elogio. Buscando a abrangência, o roteiro destitui de princípios e escrúpulos todo tipo de pessoa, de juízes, advogados e políticos a chefões do crime e membros menores do partido – quando não são movidos por interesses de alguma forma escusos, é na incompetência que caem.

O discurso não é novo, e os tumores da sociedade já foram expostos de forma mais elaborada (embora nem sempre com tanta virulência), mas o ataque não pára por aí. A figura materna, força-motriz do mergulho à organização criminosa, tem todo seu ímpeto heróico drenado. A cena do dia das mães e, mais notavelmente, a tomada que encerra o filme não revelam uma maternidade feroz, e sim uma relação ordinária. O beijo que ele dá em Lúcia é um tanto mecânico, o sorriso um tanto cansado. Não há o desespero e o amor que caracterizam histórias em que um filho está em apuros; é uma relação tão natural, no sentido de “trivial”, até de “obrigatória”, quanto os conluios com o PCC.

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O romance da mulher com o Professor (Bruno Perillo) traz pelo menos um momento absurdo e escandalosamente piegas: ela declara para ele que iria para a prisão só para os dois ficarem juntos. Esse exagero porém, escancara a entrega romântica ao opô-la à falta de dedicação por Rafael. Não só ela nunca promete algo tão desvairado para o filho, como também deixa de visitá-lo para ficar com o amante. Embora, no início, a tristeza da mãe seja genuína, logo descobre-se que ela é formada em Direito. Apenas com insistência externa ela aceita usar o diploma para o bem do filho – e depois dessa constatação brutal, a falia da Lei e o sucesso do suborno se tornam secundários. Mais uma prova de que o PCC opera onde o poder oficial não alcança, com a diferença de que não havia nem um amor digno de quebrar tantas regras e barreiras. O partido ajuda quem pode ajudá-los, predando o sistema de tantas maneiras e por motivos tão banais que os esforços para mudá-lo soam como pura hipocrisia demagógica.

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Apesar de tanto pessimismo e ferocidade, Salve Geral é um filme profundamente falho, não apenas em detalhes menores. Um sem-número de cenas chave são pessimamente encenadas (o primeiro contato entre Lúcia e o Professor) ou ruins mesmo no papel (o crime de Rafael), e há diálogos, como a didática explicação de Lúcia para o espectador no início, que passam dos limites do ridículo. É notável, portanto, que com tão pouco controle sobre a técnica o filme alcance semelhante poder e abrangência em seu discurso. Sua coragem não está em expor todas as castas de ambos os “lados” da sociedade operando em conjunto; nem em questionar a separação dos bons e dos maus – afinal, o processo resvala num incoerente maniqueísmo. A obra é corajosa ao negar características de uma das figuras mais límpidas da ficção e de fora dela para encorpar um pessimismo genuinamente desesperador.