Mesmo sendo composto de três filmes diferentes, Tokyo! surpreende pela unidade. Não falo de um nível de qualidade constante, pois as histórias podem ser elencadas da melhor para a pior: Shaking Tokyo, Interior Design e Merde. O que une as três propostas de diretores tão diversos quanto Bong Joon-Ho, Michel Gondry e Leos Carax é a presença do realismo fantástico. Seja com menos (o namoro singelo do casal do primeiro filme) ou mais clareza (a criatura do esgoto é filmada por celulares e gera um fenômeno na mídia), existe um forte realismo, que, mais cedo ou mais tarde, é naturalmente transmutado em uma fantasia.
Quando essa fantasia diz algo metaforicamente, caso dos segmentos de Bong e de Gondry, existe certa homogeneidade. A mensagem politizada de Merde, por sua vez, soa bastante deslocada, e acaba estragando o que poderia ser mais um interessante curta-metragem. O diretor perde um tempo precioso mostrando grupos xenófobos e vieses nacionalistas, quando trazer um “monstro” humano aterrorizando a cidade mais atacada por criaturas radioativas gigantes já era uma ironia pra lá de suficiente. A insistência dessa pragmática “seriedade” torna a trama do quase-alienígena um cansativo panfleto. Sua limitação a temas tão concretos quanto xenofobia, direitos humanos e radicalismo foge muito da proposta da obra, subjugando o inusitado em detrimento do óbvio.
Na parte de Gondry, o elemento fantástico não é tratado de forma menos óbvia de jeito nenhum, entretanto existe um jogo inteligente na relação entre o lógico e o ilógico. Enquanto a vida da protagonista é singela e enquanto tudo faz sentido, sua presença é pesada e a narrativa não caminha. Por outro lado, quando tudo se transforma, essa estagnação é quebrada, sua presença se torna quase nula e ela fica feliz com isso. Embora a metáfora da cadeira seja pra lá de simples, é interessante como o roteiro diz “Sim, há espaço para tudo em Tóquio, até mesmo para gente que só serve para fingir que não existe”. A inversão da lógica se dá no contexto da capital, pois esta permite que o elemento fantasioso faça sentido, mesmo que através da metáfora.
A idéia da cidade surreal nas entrelinhas também se apresenta com força no segmento do diretor coreano: nele, o entrelaçamento de texturas diferentes, tipicamente bem-feito na filmografia de Bong, surge forte. A pura estranheza da existência dos hikikomori já parte do ponto em que Interior Design chega no final: o de que Tóquio comporta tipos e eventos fantásticos mesmo em sua lógica de metrópole. A idéia, já batida, da redescoberta do contato é mediada por muitos elementos intrigantes, como os botões da entregadora de pizza, a conversa ao mesmo tempo rude e afável, intrusiva e acessível com seu substituto e, claro, os terremotos.
É estranho pensar como uma região tão populosa e densa de altos prédios pode se sujeitar a tantos tremores de terra. Nessa história, mesmo que nada seja destruído, o evento acaba tendo impactos fortíssimos em duas pessoas pouco usuais. Quando essa “diferença” se espalha, os terremotos apresentam um valor similar, mas bem mais atabalhoado de aproximação – o que só torna o final mais belo. É uma visão otimista, já que as pessoas, em face do perigo, acabam se juntando, até se misturando, como dois líquidos miscíveis. Bong cria uma fantasia não só narrativa e cinematográfica, mas também ideológica, na medida em que enxerga uma saída natural e abrangente para o distanciamento entre as pessoas. O que não acontece, claro: os grandes heróis da história são, de novo, os “estranhos”, que conseguem se desvencilhar das limitações sociais, com ou sem terremotos. Ao mesmo tempo, é como se existisse um ciclo constante entre o que é raro e o que é comum, e existe um equilíbrio complexo nessa relação.
Assim, apesar da irregularidade e da pluralidade dos discursos, fica a sensação de que o Cinema foi utilizado para uma ponderação imagética e narrativa do mundo à parte que a capital japonesa representa. Talvez o que haja de mais uniforme e essencial no projeto como um todo é que todos concordam que aquele lugar é palco para diferenças. Mais chamativa ainda é a superficialidade com que a cidade é tratada: quando a cultura é adentrada, ela o é através de um pensamento cinematográfico distinto. Os elementos fantásticos são jogados para causar o maior estranhamento possível, ao que a arte de cada um dos cineastas trata de ligar os elos em um corpo só, um todo calcado no realismo fantástico. Tóquio é um espaço visual/cultural que permite esses pensamentos e essas brincadeiras narrativas e estéticas, mas não soa como se impusesse essa visão surreal aos diretores. A cidade é aonde Gondry, Carax e Bong vão para unificar sua arte num contexto sócio-cultural tão distinto quanto suas visões.