Entre os indicados do Globo de Ouro 2009, Na Mira do Chefe figurava nas categorias de “Comédia ou Musical”. Estranhezas óbvias à parte (defina musical), essa definição é curiosa simplesmente por colocar o filme no gênero comédia. Qualquer um que o assista pode dar risada, pois é engraçado. Chamar de comédia, por outro lado, parece incoerente. Não existe quase nada que remeta a um timing cômico, seja o pastelão de Chaplin ou a elegância verbal de Wilder. As gags físicas são tolas, e o diretor Martin Mcdonagh, na cena dos obesos, ressalta isso com uma câmera estática, que faz Ray (Colin Farrell) e o homem entrarem e saírem do enquadramento na tosca perseguição. Os diálogos, por sua vez, são auto-explicativos:
Ray: Bem, vocês não vão subir lá.
Homem obeso: Como é? Por quê?
Ray: Quero dizer, é uma baita escada. Não estou de brincadeira.
Homem obeso: O que você quer dizer, exatamente?
Ray: O que eu quero dizer é que vocês são um bando de elefantes.
É o tipo de coisa que até poderia constar como humor negro, politicamente incorreto, mas Farrell se adequou a uma tendência forte do roteiro de não criar piadas. Ao dizer “não estou de brincadeira” Ray está sendo bastante sincero, e continua sendo quando chama o grupo de obesos de elefantes. Ele está apenas dizendo o que lhe veio à cabeça, e o humor, negro ou correto, não é sua intenção. Boa parte das comédias constrói seus personagens em torno das piadas, e não fica a sensação, como nesse filme, de que personagem e ator estão realmente alheios à comicidade. Para não ficar só no mau exemplo, Wilder valoriza diálogos cinematográficos e cuidadosamente confeccionados, oposto ao naturalismo visto aqui.
Em outros momentos, as piadas existem, como quando Ken (Brendan Gleeson) vê Ray prestes a se matar. Apesar da ironia fina e do diálogo tragicômico, cada palavra faz sentido num contexto sério, mesmo que a situação seja hilária para quem vê. O roteiro é habilidosíssimo ao criar eventos em que os personagens não vêem graça – a discussão entre Ken e Harry (Ralph Fiennes) em Bruges, a outra entre este e Eirik (Jérémie Renier). Nenhum ator se porta como comediante, mas sim como gente normal – outra grande qualidade do filme, pois consegue desenvolver assassinos perfeitamente humanos depois de dar uma impressão forte de frieza. Os momentos em que eles têm a intenção de soar engraçados, especificamente a cantada de Ray em Chloe (Clémence Poésy), são entoadas da mesma maneira que as piadas despercebidas – no caso, para o protagonista passar a ideia de que é naturalmente engraçado.
No que é talvez o elemento mais interessante da obra, o anão Jimmy (Jordan Prentice) é mais uma das grandes distorções de gênero que o filme propõe. O fato de Jimmy ser um ator e fazer papéis de “anão bizarro” é um ataque tangencial ao uso de portadores de nanismo na comédia – e Prentice entende ambos os lados, por ter feito o papel principal em Howard: O Super-Herói. O personagem surge em situações comuns, e, na hilária cena das prostitutas, todos estão drogados, dizendo e fazendo absurdos igualmente. Seu papel na trama é ainda mais interessante por fazer parte da tragédia, talvez a única linha que o filme segue.
Auxiliado pela fantástica trilha de Carter Burwell, a trama se desenvolve tragicamente por causa de eventos do acaso. Tudo é orgânico e natural (excetuando-se a fixação de Ray em anões), e a sombra de Harry une todas as pontas de forma primorosa. Sua moralidade, sua visão apaixonada de Bruges, a reação à desobediência de Ken: ele se conecta à tragédia, ao que o roteiro é convicto em atestar, sutilmente, como a mercantilização da morte destrói muito mais vidas do que pretende. No fim, inocentes e culpados morrem, mas nunca pelos motivos corretos e/ou planejados – incluindo-se aí (por que não?) a família de Harry. Mais que perigoso, o negócio do assassinato é simplesmente confuso e desordenado. Assim, a naturalidade que Ken e Harry apresentam perante sua profissão é inviável, e é a ruína de todos os personagens.
Límpida e brilhantemente, o naturalismo e a tragédia se justificam como tons e sensações, que o diretor alcança com intensidade. As cenas de violência são realistas e brutais, não hesitando em tornar corpos em massas disformes e ensangüentadas – e mesmo assim, são cenas de partir o coração, tamanho o elo que os personagens alcançam. As perseguições desmantelam a tensão e a ação cinematográfica, os diálogos entre Harry e Ken quebram as pernas do suspense, e a comédia, tida como o gênero de Na Mira do Chefe, é desmascarada. Tudo que sobra é a destruição humana, que se faz sentir profundamente.