À Deriva (2009)

Por pedro. 09:01:33+0000 September 29, 2009. :: Permalink :: Categoria: Arte, cinema

O terceiro longa do promissor Heitor Dhalia é sobre crescimento. Partindo do ponto em que a primogênita de Matias (Vincent Cassel) e Clarice (Débora Bloch), Filipa (Laura Neiva), descobre que o pai tem uma amante, a obra segue para mostrar a vida da adolescente durante a separação dos pais. Enquanto os desentendimentos dos adultos vão [...]

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O terceiro longa do promissor Heitor Dhalia é sobre crescimento. Partindo do ponto em que a primogênita de Matias (Vincent Cassel) e Clarice (Débora Bloch), Filipa (Laura Neiva), descobre que o pai tem uma amante, a obra segue para mostrar a vida da adolescente durante a separação dos pais. Enquanto os desentendimentos dos adultos vão crescendo, a menina começa a se envolver com o sexo oposto com curiosidade. O roteiro emparelha a descoberta sexual com o fim do casamento, e, nessa linha de interpretação, conclui-se de forma primorosa.

Aliás, subtexto é o que não falta em À Deriva. O próprio título já faz a atenção se dirigir aos aspectos menos explícitos da trama. Nesse quesito, a obra continua relativamente sólida. É belíssima a cena em que Filipa escapa do pedófilo, que agrega ao ato de flutuar o valor de maturidade emocional para se lançar em assuntos profundos. O roteiro cria um complexo conceito de adulto, detalhando o processo de crescimento que um jovem empreende em face de certas situações como a separação dos pais. Filipa se julga crescida, por conhecer o sexo, a família despedaçada, a mãe problemática, o affair do pai – mas ela sempre descobre que o mundo adulto é muito mais complicado. Esse mundo, por sinal, nunca é idealizado, e isso fica claro quando a mãe, iluminada por um egoísmo imenso, se livra da bebida.

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No entanto, a montagem faz parecer que a mensagem não está clara. Ela prefere cortar dessa cena para Filipa, no bar, pedindo uísque para se enquadrar na imagem de adulto que conhece. A cena não é tola pois a menina não está sendo vítima da herança comportamental da mãe, ela sabe que está ‘amadurecendo’ por um meio reprovável. Por outro lado, esse didatismo está presente em inúmeros momentos – o pior deles é quando Clarice quebra os pratos –, e é uma concessão estúpida para um filme que tenta com tanta força criar significados nas entrelinhas. A metáfora da água, elemento principal de tudo que está fisicamente à deriva, também é escancarada demais, culminando na hedionda cena em que a lancha de Matias fica sem gasolina em alto mar.

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Dhalia, no entanto, quer mascarar suas metáforas. Quer que elas se passem por acontecimentos banais, que recebem organicamente seus significados segundos. Por isso há um breve plano de um barco rebocando a lancha, para mostrar que, sim, isso foi apenas um evento qualquer, e que, escondido nele, há algo mais. Mas não é assim na prática. A estrutura do subtexto é berrante, anuncia-se sem elegância, e a tentativa de trivializá-lo (até o pobre Cassel tenta mostrar inconsequência) dá a impressão de que o diretor tem vergonha dele. Berrante e deselegante também é a fotografia de Ricardo Della Rosa, que tenta desesperadamente mostrar como o mundo em volta é paradisíaco para se opor ao caos familiar. Sem ressonância alguma no roteiro, entretanto, esse comentário surge como algo pior que estilo vazio: surge como uma necessidade sofrível criar sentidos, sem notar que já há muitas coisas ditas, e ditas até a exaustão.

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Se o filme não é simplesmente ruim, é graças ao excelente elenco, totalmente sintonizado em cada personagem. Neiva, embora quase destituída de inocência, consegue deixar claro que ainda há um lado infantil habitando aquela alma calejada. Cassel consegue se despir em humanidade sincera, impondo todos os defeitos de uma pessoa comum como indispensáveis. Ele é refletido em Bloch de forma intensa, e ela não só aceita a inevitabilidade de seus egoísmos e mesquinharias, como também os projeta no rosto, mantendo-o crispado e tensamente resoluto. Embora todos os atores encontrem o tom emocional, faltou a Dhalia fazer o mesmo. Essa inconsistência remete à bela trilha sonora: por bem feita que seja, ela ressalta emoções que não estão lá, formando um fino invólucro sem preenchimento. O filme inverte o valor de subtexto e do drama central, exteriorizando o que deveria ser interno e internalizando – empalidecendo – o que deveria ser externo.