Lawrence da Arábia (Lawrence of Arabia – 1962)

Por pedro. 09:39:53+0000 September 1, 2009. :: Permalink :: Categoria: Arte, cinema

Existem dois filmes em Lawrence da Arábia. A Intermissão marca essa divisão em partes de características radicalmente diferentes. A primeira metade pode ser chamada de minimalista, tamanha a economia de elementos. Lean filma o deserto de forma simples, impondo o céu, azul puro, à terra, só areia, e esmagando os homens no meio de rochas [...]

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Existem dois filmes em Lawrence da Arábia. A Intermissão marca essa divisão em partes de características radicalmente diferentes. A primeira metade pode ser chamada de minimalista, tamanha a economia de elementos. Lean filma o deserto de forma simples, impondo o céu, azul puro, à terra, só areia, e esmagando os homens no meio de rochas imensas, totalmente insignificantes perante essas forças titânicas. Todos estão sujeitos à geografia do lugar – montam acampamento em lugares rodeados de rochedos altos, e andam ao lado de formações alongadas. Se isso é momentaneamente mudado, a terra é elevada, toma maior parte do plano, e o campo/contracampo, antes usado para impor o agourento e onipresente sol, basta para mostrar a euforia de vencer o deserto. Se, depois de um refresco, os personagens voltam à aridez, o diretor continua filmando da mesma maneira, e o cansaço que isso causa só torna a jornada mais angustiante. Quanto às batalhas, a visão é abrangente, com planos longos e/ou semelhantes. A personalidade de Lawrence (Peter O’Toole) tampouco é esmiuçada, mantendo-se um retrato simples de seus ideais e de seu autojulgamento como líder inato.

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Na segunda parte, é através de parcos e sucintos diálogos que o personagem se desenvolve além, e a lógica da filmagem de Lean não se altera. No entanto, a quantidade de informações cresce consideravelmente. A unidade dos homens comandados pelo inglês vai desmoronando, pois as pilhagens a trens turcos são muito mais frenéticas que a tomada de Aqaba. A clara intromissão dos EUA e a presença constante de outros estrangeiros na Arábia aumentam a desorganização, criando uma vasta rede de interesses. Os pontos de vista, antes limitados ao de Lawrence, se multiplicam, e não apenas para facilitar, mas para adicionar cada vez mais elementos à trama. Consequentemente, o passo da narrativa, antes cadenciado pelas longas jornadas, se torna veloz e, para todos os efeitos, mais fugaz. É interessante notar como sombras e reflexos, antes associados a devaneios da meta principal, são bem mais usados.

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Esse é um bom ponto para começar a discorrer. Por que o uso de sombras e reflexos? Porque eles distorcem, de uma maneira ou outra, a imagem original. E a radical mudança que ocorre entre as partes do filme tem tudo a ver com a perda de foco, com a distorção. Não só o idealismo de criar uma Arábia unida vai se diluindo, como também a própria persona de Lawrence vai esmaecendo. Antes ele era o líder de uma revolução na Arábia, e um inglês que saiu de seu mundo militar ordinário para adentrar um cenário árido e caótico. Era para os olhos dos outros, um árabe de olhos azuis e cabelo loiro, capaz de unir todas as tribos beduínas, como Maomé. Resumindo, ele era um homem excepcional, milagroso, tanto para seu povo britânico quanto para “seu” povo árabe.

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Quando a utopia de unir povos tão radicalmente diferentes começa a ruir, os efeitos são notáveis. Especialmente na interpretação de O’Toole. Ele é vários homens, mas desde o começo, com sua postura paradoxalmente pacífica e insubordinada, até o fim, ele mantém um sutil ponto de convergência. Ele continua contrariando costumes no deserto, com a mesma suavidade, só que, dessa vez, com um radiante sorriso. A contemplação do novo mundo logo se torna seriedade, uma causa digna de se lutar, e, sem se perder a placidez e a simpatia, o ator passa a imprimir em si mesmo a imagem de um líder. A derrocada do protagonista só torna seu trabalho mais soberbo. É visível, mas pungente, que ele aparenta não sentir dor ou privações, e lentamente torna-se vulnerável aos flagelos da vida real. Da mesma maneira, as nuances que  ele cria através de conflitos poderosos, como sua relação com o assassinato, são de uma intensidade sublime.

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Assim, a limpeza e o minimalismo do primeiro ato são diretamente ligados à ideologia utópica de Lawrence. O sonho com um lugar ideal, uma nação erguida graças a seus esforços, parece ser a tentativa do homem de criar um mundo para si mesmo. Os planos de unificar os árabes, assim como o de construir algo dos escombros, são os elementos que dão o tom trágico do personagem. É ao ser imbuído da sede de sangue que ele percebe que seus esforços são inúteis, pois dá de cara com a psique coletiva daqueles povos. O que era organizado e asséptico no começo se torna conflituoso e poluído no final, mas não existe mudança, de fato. Foi apenas a realidade esmagando todas as ilusões. É como ver a morte do protagonista no início, sem o final circular que lhe vai dar o contexto. Não é um fim climático, é tolo, parece apenas uma cena qualquer. Só ao retornar ao passado de Lawrence, e conhecer sua mente, é que a realidade é exposta, e essa ilusão, desmantelada: sua morte é profundamente cinematográfica.

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