Há muito a se odiar em Apenas o Fim. Coadjuvantes insuportáveis, no sentido mais direto da palavra, e com funções narrativas tacanhas; músicas se insinuando em algumas cenas e tentando manufaturar um feeling descolado; uma proposta estética insistente, por vezes obtusa e simplista; uma sinceridade escancarada que emula Mike Nichols sem a mesma dramaturgia cuidadosa; a clara pretensão de retratar uma geração através de um sem número de referências à cultura popular infanto-juvenil; comentários constantes sobre como seriam os atos do casal dentro de um filme… Em um dado momento, a impressão é a de que a obra faz tudo isso de propósito, com o intuito de gerar antipatia no espectador. E talvez seja isso mesmo.
Todos esses detalhes, que vejo como inconsistências, podem ser aparentemente ‘redimidos’ pelo formato da obra, que adota o ponto de vista de seus dois protagonistas (Erika Mader e Gregório Duvivier). Mais ainda: sendo o jovem estudante de Cinema, várias das citações e comentários em relação à estrutura narrativa da vida do casal seriam escudadas de críticas, pois partem dos personagens, e não do roteiro. E se é assim, o filme sofre de uma postura defensiva e covardemente protege seus defeitos. Mas não vejo desse modo. Ele retrata humildemente os momentos finais da relação, mas toma o caso para si quando subjuga os flashbacks aos acontecimentos ‘principais’. Esse recurso técnico age como se ignorasse o começo e o meio em detrimento do desfecho, como o personagem de Duvivier claramente faz em relação ao namoro.
Logo, não há distanciamento. A proposta é utilizar artifícios cinematográficos para transpor emoções e pensamentos para a linguagem audiovisual. O filme expõe e defende tecnicamente as posições do casal, e essa atitude é o exato oposto da covardia. Fica a questão: se havia personagens mais dignos de defesa, se havia outros diálogos possíveis, que não soassem ocasionalmente patéticos, por que optar por aqueles? É como perguntar a um herói por que ele resguarda uma pessoa cheia de defeitos. Que o defendido retrate toda uma geração que, como todas as outras, tem seus integrantes, detratores e defensores, é um detalhe. Adotando a metáfora do herói (besta, eu sei) para o Cinema, ficamos com uma resposta justamente egocêntrica: para provar algo.
O que Souza parece provar, enquanto expõe as rachaduras de sua obra para questionamento, é que boas intenções nem sempre alcançam bons resultados. O caminho tortuoso que escolhe, passando pela má ideia em si e pela intenção de aceitá-la como parte integrante do filme, elabora o discurso de forma notável. A mera consciência de um problema não é o bastante para sublimá-lo, e o diretor/roteirista vai ao extremo de mantê-lo no produto final para expor a discussão. Assim, esse é um filme conscientemente falho, e parece, com efeito, ser aberto ao espectador de forma peculiar. Quem assiste “Apenas o Fim” acaba ganhando o direito de repeli-lo, tanto quanto o de abraçá-lo.
O Cinema, na verdade, é feito de ideias pensadas e escolhidas depois de uma longa seleção por parte dos realizadores; por esse motivo, toda crítica negativa contraria algo que foi proposto pelo diretor, ou pelo roteirista, ou pelo ator, e etc. Aqui, não. Criticar certas escolhas é ir ao encontro da sensibilidade de Souza, é confirmar que o que ele fez foi incorreto, como previsto. A tese é de que o universo da obra é absoluto no tocante a seus elementos, mas não garante a perfeição apenas por sê-lo. Todo filme é um mundo absoluto, inclusive nas formas aberrantes que o tornam menos homogêneo. E, por mais que traga esse ideário belíssimo, essa pérola é cristalizada em seus defeitos, e é imperfeita. Soberana, mas imperfeita.