Desde o início, temos o Bom, o Mau e o Feio. Depois do título, já bem explícito, cada um dos personagens é apresentado com freeze-frame e o apelido ao lado. Depois de ter seu visual pouco elogiável mostrado, o Feio (Tuco, Elli Walach). Depois de assassinar pessoas por dinheiro, o Mau (Olhos de Anjo, Lee van Cleef). E depois de proteger Tuco de outros pistoleiros, o Bom (Blondie, Clint Eastwood). O que une todos é, obviamente, a morte.
Os três, além de matarem em alguns pontos da narrativa, tratam de matar logo no início. A regra é inconfundível: bondade e maldade são conceitos relativíssimos nesse cenário. Não é o respeito aos Mandamentos, ou a noções básicas de humanidade; é o modo como e por que matam que trazem a diferença. Ainda nas semelhanças, todos estão atrás de dinheiro fácil, e não pesam a moralidade para chegar até ele. Os personagens são habilmente desenvolvidos a partir desses preceitos, inclusive através das escancaradas caricaturas do título.
Tuco é o rosto repugnante que sempre aparece numa cidade para carregar os crimes nas costas. Blondie, belo, está sempre escondido: sua aliança com o criminoso não deve ser revelada, pois arriscaria delatar seus atos igualmente imorais. Olhos de Anjo, de tão estabelecido como estereótipo, aparece apenas para maltratar os outros dois personagens. A partir de certo momento, todos têm o mesmo objetivo: encontrar os 200 mil dólares. Todos matarão, mentirão e trapacearão para tal. O duelo final, em que todos são colocados num círculo no centro do cemitério, é a apoteose visual e cênica dessa semelhança.
Sergio Leone dirige suas cenas com um arranjo poderoso e consciente. Tudo é ensaiado com rigor, de um jeito tão estrito que outras possibilidades e minúsculas variações são literalmente impossíveis. A trilha genial de Morricone se sujeita a essa regência e dita o passo ao mesmo tempo, acompanhando as longas tomadas do diretor a todo custo, mas emprestando sua força particular para a cena. Os efeitos sonoros, como no quase-enforcamento de Blondie, são cruciais, pois representam elementos de um conjunto cheio de detalhes – a marcha dos soldados, as esporas, a montagem da pistola. A fotografia e o uso das câmeras são igualmente, e concomitantemente, meios e fins, como a demente cena do cemitério atesta. O fato de Tuco encontrar o que procura depois de tanta desorientação só reafirma o brilhantismo de Leone.
Mas antes mesmo disso, o ensaio se forma no roteiro. Mais do que salvar a vida de Blondie, o canhão que derruba Tuco serve para ditar o final do filme, em que o código de honra do Bom é posto à prova e esticado de todos os lados. A tortura do deserto é absurdamente extravagante, e ao mesmo tempo faz sentido na ambientação árida do western spaghetti. Essa punição também é o mote de todo o resto do filme, pois é uma “coincidência” que permite o entrelaçamento da tríade de personagens-título. As aspas servem para estabelecer que esse evento passa longe do acaso: a obra inteira foi concebida como a união dos três, logo, tudo que os unisse no final não é menos que essencial para a trama. E que o roteiro os mantenha constantemente separados é um ode à arte de escrever filmes.
No final das contas, Il buono, il brutto, il cattivo é sobre homens distintos. Toda a sequência que mostra o conflito pela ponte se origina daí. Enquanto centenas de combatentes servem seu país e morrem por ele, Tuco, Blondie e Olhos de Anjo se limitam a observar por algum tempo a massa, e logo continuam suas jornadas individuais. Caem nas situações por motivos insanos, e saem delas por meios ainda mais incríveis – ou talvez só por fazerem parte de outro mundo. Seus objetivos nunca mudam, mesmo que sua passagem marque profundamente as pessoas comuns em volta. Só se comunicam com estas violentando-as, comandando-as, atirando em seus chapéus ou esperando-as ficar bêbadas. Eles são personas à parte, entregues às próprias idiossincrasias, rasos em ideologias e completamente ignorantes quanto a uma existência trivial. O Bom, por consequência, é o que demonstra um relativo senso de justiça e coerência, mesmo que seja uma coerência calcada no olho por olho. E se esse é seu diferencial, o Mau e o Feio são outras alegorias desse universo restrito, onde nem todo mundo é de beleza e bondade uniformes como o norte-americano ideal.








