Solaris (Solyaris – 1972)

Por pedro. 12:06:39+0000 August 6, 2009. :: Permalink :: Categoria: cinema

Há duas mazelas que não cessam de assombrar o Homem: o desejo de saber e a necessidade de ser feliz…

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Há duas mazelas que não cessam de assombrar o Homem: o desejo de saber e a necessidade de ser feliz. Em Solaris, de Andrei Tarkovsky, esses dois ideais parecem ser paradoxais. Quando se aventura para conhecer a verdade sobre o espaço, a raça humana corre o risco de ser deixada à deriva em meio a fatos que nunca conhecerá e de ideias que nunca compreenderá. Como o conhecimento é gerado pela necessidade de se sentir superior a tudo, essa frustração é uma das maiores que podem acometer nossa civilização. Mesmo ao se aproximar de um planeta completamente diferente, nossa posição é de superioridade, e, caso algo saia errado, esse empecilho prontamente será julgado como uma ofensa.

A resposta, logo, é a ofensiva: bombardear com raios especiais o oceano de Solaris, tido como uma substância com capacidades intelectuais. O pré-histórico olho por olho, nesse filme mostrado sob um forte verniz científico, já representa uma grande estupidez. Ainda por cima, o ataque que gerou a radical reação ainda é duvidoso. Afinal, houve, de fato, uma intenção hostil? Os resultados são inegáveis: de 85 passageiros da estação espacial, apenas três restaram. Daí para buscar um culpado é um gigantesco salto moral. Alega-se que o oceano é uma ameaça, o que aparentemente é correto. Se um visitante interplanetário pousasse na Terra, entretanto, também iria encontrar perigos desconhecidos. O desconhecer é o não saber a verdade, e o movimento da Ciência é de ignorar a verdade. Em prol da humanidade.

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Depois de “morta”, a substância inteligente se tornará inofensiva, e todos da comunidade científica se prontificam a abrir mão desse conhecimento para salvar vidas humanas. Esse “sacrifício” autopiedoso mascara um expansionismo danoso, em que uma sociedade rejeita tudo que não entende. Coincidentemente, indivíduos morreram bem quando a verdade escapou das mãos dos cientistas. Embora a ofensiva seja dada como resposta às perdas, no subtexto, esse ataque serve para enterrar as falhas da fortaleza intelectual da raça. A possibilidade de o planeta não ter tomado parte ativa na morte dos tripulantes é ignorada. E o que o filme mostra é que, na verdade, as mortes e desaparecimentos tiveram mais a ver com as próprias pessoas do que com o oceano.

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Kris Kelvin prova que, se alguma intenção é programada pela substância, é inicialmente pacífica e possivelmente benigna. Ela faz com que Hari, a esposa morta do psicólogo, surja fisicamente para ele, e, embora ele resista a um conceito tão impensável, logo ele estará sendo criticado pelos colegas por passar tempo demais com a mulher. E, nesse momento, a busca pela felicidade já está encaminhado no contexto da trama. O protagonista consegue ser intensamente feliz, mas só em detrimento da verdade. Quanto mais ele é confrontado com a natureza alienígena e misteriosa da mulher, mais ele tenta se afastar, para se manter num mundo ideal. Essa tendência a fugir da realidade é anunciada bem antes, com a instalação que simula o som de folhas. Por outro lado, Hari vai se fragilizando, pois vai claramente se tornando mais humana enquanto convive com Kelvin. O ser, que era antes uma cópia nula similar às de Vampiros de Almas, vai empilhando emoções e confusões, e sofrendo com isso.

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O que fica claro mais tarde é que, da mesma forma como os terráqueos queriam entender Solaris, este queria entender seus visitantes. Em vez de mandar naves, o oceano sapiente mandou seres cada vez mais aperfeiçoados (da criança gigante de Berton até a quase perfeita Hari) para compreender a mente terráquea. A falha de compreensão, logo, é múltipla. Não só os humanos se revelaram incapazes de entender as propriedades do planeta; não só acharam que a abordagem era hostil; como também cada indivíduo da estação espacial falhou em entender a aproximação, e isso os levou à loucura ou ao suicídio. Solaris, também, é atacado, mas responde de forma pacífica. Ele continua tentando entender os indivíduos. Estes, por outro lado, rejeitam o autoconhecimento, e parecem prezar essa ignorância. Seja por altruísmo ou por buscar o entendimento, o planeta se mostra muito superior à mentalidade de seu objeto de estudo.

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A nossa sabedoria, por outro lado, é tratada como desgovernada, burra e destrutiva. Destrutiva porque sua intenção não é entender elementos diferentes, é subjugar tudo que conhece a seus pré-julgamentos científicos, categorizando tudo em física, química, biologia, etc. Sendo um conceito tão incrível, o oceano inteligente ganha o mais cedo possível a alcunha de ameaça, justificando sua obliteração. No caso, a expurgação dessa forma aberrante dentro da sempre perfeita ciência. Nossa espécie é apenas curiosa, apenas espia, e acaba vendo o que não entende nem consegue aceitar – como Kelvin no início do filme, ouvindo, despercebido, algo que não lhe deveria ser revelado. Berton, logo após contar inconscientemente o segredo, entra numa série de túneis e rodovias. A música intensa e a filmagem confusa explicam que, mesmo pronto para criar tais construções, para viajar para outros planetas; enfim, para canalizar sua inteligência em algo grandioso, o Homo sapiens ainda está desorientado, incapaz de unir suas percepções num todo que ele mesmo compreenda.

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O oceano, por sua vez, entende o ser humano quando cria, para Kelvin, uma ilha com tudo que ele precisa. Ele entende que nossa espécie é incapaz de conviver com a diferença, mas se conforma com qualquer mentira bem disfarçada. Sua conclusão, já insinuada em um diálogo anterior, é que a raça humana nunca está à procura de algo diferente. Tudo o que quer é expandir sua semelhança, criando espelhos de comportamento, aparência e mentalidade que validem, em proporção cada vez mais vasta, sua hegemonia como espécie inteligente.