Audition (Ôdishon – 1999)

Por pedro. 14:39:23+0000 July 21, 2009. :: Permalink :: Categoria: cinema

Audition é um filme sobre gerações, algo ao mesmo tempo previsível e inesperado.

Audition é um filme sobre gerações, algo ao mesmo tempo previsível e inesperado. Se esse é um tema abordado regularmente pelo Cinema japonês, o raro e cru sadismo de Takashi Miike é por si só uma quebra de paradigmas e limites. O ponto de convergência é o personagem de Shigehiko Aoyama (Tetsu Sawaki), filho do protagonista Shigeharu (Ryo Ishibashi). Apesar de aparecer pouco na trama e não ter um desenvolvimento amplo, a forma como o roteiro o explora serve bem à trama.

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Sua figura representa uma nova geração, simplesmente, enquanto Shigeharu é o símbolo do passado. O filho se prontifica a falar sobre uma nova esposa, e o faz sem amargura alguma, encarando a morte da mãe com a naturalidade necessária. O pai, por outro lado, trata do assunto com voz e cabeça baixas, como se julgasse errado encontrar uma outra mulher. A cena em que Shigehiko aparece em casa com uma garota e diz tê-la conhecido no metrô demonstra a desenvoltura do jovem. É um sinal de liberdade e iniciativa, e uma sutil menção a tempos novos, em que pode-se desenvolver relações a partir de situações triviais.

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A audição do título é uma tentativa atabalhoada do protagonista, pois é tão conservadora (por ser um primeiro contato distante e respeitoso) quanto moderna (por ser uma abordagem inusitada). Além disso, a proposta de conhecer um par de tal modo não é sua, é de um amigo; mas, mesmo assim, ele concorda, e se mostra aberto para um envolvimento com Asami Yamazaki (Eihii Shina). É quando se insinua todo o teor horrorífico da obra, e quando sua estrutura temática, já construída, é posta em prática.

É com essa personagem que Shigeharu entra de fato em territórios modernos, de modo parecido com a menina do metrô. Ele se entrega lentamente, mas apaixonadamente, à bela Asami, e a jovialidade da relação é sempre oposta ao conservadorismo que sua idade impõe. Quando, num surto impulsivo, ele começa a procurar a mulher como num melodrama, isso é mostrado como uma faceta adolescente, mostrando que, mesmo anacronicamente, ele está jovem de novo.

Mas não há felicidade ou recompensa nesse sentimento, apenas dor. É como se a idade adulta fosse punida por tentar voltar no tempo e se adequar ao mundo novo, que se revela radical demais para uma pessoa velha. Mas não é exatamente isso: é a pura constatação, e não punição, do esforço para se adequar aos novos tempos, e a confirmação de que esse esforço é fútil. A conclusão, anticlimática em sua brevidade e simplicidade, é a representação máxima dessa ideia: a violência e a insanidade do mundo moderno arruinam a vida de quem é mais velho, mas o jovem, nascido nesse contexto, lida com tudo instintivamente, e termina ileso.

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Nesse processo, o próprio diretor faz um jogo entre o estilo velho e o estilo novo, principalmente por usar boa parte do filme para estabelecer o personagem de Shigeharu, sem tentar incluir horror só porque esse gênero surgirá depois. A longa construção da narrativa, a calmaria cênica e a contemplação narrativa, típicas do cinema do Japão, são brutalmente confrontadas com o forte sadismo. Logo, a presença concomitante do tradicional e do ousado ocorre em duas frentes, pois salta da abordagem tmeática do roteiro e se dirige ao próprio formato da obra. O horror está presente só na psicopatia e nas torturas dantescas. Está, primordialmente, na sociedade como ela é hoje. E Miike, tido como sádico, está apenas comentando-a, com humildes pinceladas autorais.