
É muito fácil cair no maniqueísmo num filme em que o bem e o mal se confrontam. Em O Olho do Diabo, Bergman opta por um formato bem mais complexo e ousado. O mal absoluto, na figura do Satanás e do inferno, é colocado lado a lado com a força mediadora do conflito. Ou melhor, a massa de manobra. Pois é assim que o cineasta vê seus personagens, como marionetes manipuladas por forças supremas, como o Céu e o Inferno. Ao mostrar, de forma estilizada, um retrato íntimo deste último, ele ressalta os processos de sedução do homem e da mulher para o lado “mau” da vida.
Mesmo assim, a ideia não é simplificada. Não é mostrado, por exemplo, que as pessoas são conduzidas pelas forças superiores sem possibilidade de resistência. Apesar da influência bem direta dos diabos, cada personagem tem uma visível tendência a ceder. Quando isso leva o roteiro a enfocar o passado de repressão e disciplina moral, ele perde parte da força. A expositiva conversa sobre a vida de Renata (Gertrud Fridh), nada pungente e um tanto supérflua, chama a atenção que deveria ir à ótima atriz, e soa simplória na relação entre causa e efeito. Por outro lado, o displicente retrato de Jonas tem muito a ver com sua função robótica na mensagem moral da narrativa. Sua esposa Britt-Marie (Bibi Andersson) demonstra que ser expositivo não é o problema, e sim a revelação do passado sentimental.

Grande parte da obra é focada nas emoções instantâneas, no que cada personagem sente no exato momento da cena, e aí está um dos trunfos do diretor. Ele capta tudo com atenção intensa, congelando o enquadramento ou espremendo-o, sempre com a intenção de sugar e secar tudo que o ator oferece. Essa contemplação é ríspida e rigorosa, tanto que chega a fazer as vezes de crítica, na mesma medida em que reconhece as fraquezas humanas. Na ação periférica, por sua vez, ele permite música (singela e ironicamente macabra), digressões cênicas (o gato preto, as mudanças no clima) e até mesmo a intromissão de Gunnar Björnstrand, que comenta vários aspectos da comédia.
A presença dessa figura metalinguística a anunciar cada “ato” não enfraquece o filme, mesmo ao explicar o que acontece ou acontecerá na trama. Essa divisão faz alusão direta às comédias gregas, e é uma sacada inteligente, pois a interação direta entre humanos e seres sobrenaturais é o mais visível de muitos pontos em comum. Ver Don Juan (Jarl Kulle) como um pupilo, ou até mesmo filho semi-imortal de Satã (Stig Järrel) é fácil, e as punições infernais são dolorosas e repetitivas, como as de Prometeu e de Sísifo – com um toque de Bergman. Tanto a condição absolutamente interna do sofrimento quanto a imagem do inferno como um saguão da alta sociedade são particulares da visão do sueco.

O uso de um personagem clássico da literatura é uma bela apropriação, que utiliza um extremo para alcançar abrangência. O roteiro estipula Don Juan como o máximo da frieza humana, e sua lenta derrocada ao sentimento não é só sutil e inteligente: é amostra de que todos estão sujeitos às intempéries emocionais. A fragilidade é o tema principal da obra, pois, por mais que o Céu e o Inferno façam planos e influenciem os personagens, são fatores mundanos e intrínsecos que causam os desequilíbrios. A abstinência faz com que tanto Pablo quando Don Juan desobedeçam as ordens do Diabo, mostrando que nem ele é páreo para sentimentos e necessidades humanas.

E isso não é apenas um erro de cálculo do Diabo, ou amostra de que o ser humano balança entre boas e más ações. É a constatação de que nós tendemos a ceder ao amor e a outras inconstâncias da alma, e que não existe força nenhuma capaz de prever em que resultará o caos emocional. O final é maravilhosamente ambíguo quanto a “quem ganha”, mas não deixa dúvida: a falha humana é uma ameaça constante. Tanto que até o Vicário sabe lidar com ela: após saber da traição da esposa, indaga calmamente o que será feito dali em diante. É a certeza de que nossos defeitos nunca serão corrigidos, e que devemos desenvolver expectativas a partir dos erros. Sim, até um Bergman esperançoso é pessimista.