
Logo antes de A Regra do Jogo, Renoir trabalhou, em A Grande Ilusão, o sentimento de rebelião contra uma condição insana imposta por sua nação: no caso, a guerra. Na obra de 1939 o oposto é mostrado: há uma aproximação maior das obras de Fellini, que sempre impõe uma posição determinista da sociedade perante seus personagens. No entanto, o francês vai além. Ele não dá o enfoque aos que querem escapar desse destino, da causalidade trágica de sua condição, e sim nos que sabem que não têm escapatória, e se resignam.

A burguesia vista no filme se reúne em torno de uma festa de caça, aparentemente escapando da mesmice para algo diferente, ao que indica a movimentação da trama. Todas as discussões, revelações, traições e tragédias sucedem graças à mudança de ambiente, mas, sendo um acontecimento regular, parece que tudo que acontece acontece por inércia. O que era, no início, truncado em termos de mise-en-scéne e roteiro, se torna muito mais concentrado em ambos os quesitos, comprimindo as pessoas, logo, seus segredos, suas mentalidades e seus defeitos, dentro de uma área pequena demais. A câmera primorosa de Renoir ressalta isso a todo tempo, usando planos abertos e travellings em que muitos personagens e figurantes se fazem presentes. A passagem de um lugar para outro, de uma existência social esparsa para a presença de muitos conhecidos no mesmo espaço, cria outro movimento, de choque e perturbação, que nada tem de estranho, apenas ocasional. É tudo parte da vida daqueles aristocratas.

O mesmo se pode dizer dos serviçais, pois até mesmo a introdução da peça-chave dos conflitos desse grupo, Marceau, se dá por causa do evento. A vida deles é cuidadosamente costurada em volta da dos patrões, indo de calma a caótica, de submissa a incontrolável, com muitas nuances no caminho. A apoteose se dá na perseguição, e deixa clara uma mentalidade pré-estabelecida: os convidados acham que tudo é parte de uma peça, e se encantam com a ousadia de levar o teatro para fora do palco. Em nenhum momento sabem o perigo que passam, simplesmente porque perderam o preparo para reconhecer qualquer tipo de ameaça. Os personagens em conflito, por outro lado, reagem, por estarem, naquele fragmento de tempo, cara a cara com situações diferenciadas, de tensão.

E essa tensão se dilui mesmo depois de seu brutal ápice, pois todos concordam que a dignidade deve ser mantida a todo custo. O romantismo, a idealização e as tentativas de mudança são sufocadas de forma natural – e confeccionar uma providencial causalidade é uma escolha inteligente do roteiro, por ressaltar o determinismo. Este encontra consentimento, sem dúvida, quando La Cheyniest (simplesmente um boneco, como certa cena faz questão de ressaltar) maquia os fatos para torná-los mais “dignos” e palatáveis aos hóspedes. Ele mantém Schumacher entre seus empregados, o que mostra uma sutilíssima e cruel intenção: a de manter seu mundo em equilíbrio, já que Schumacher visivelmente prestou um serviço de manutenção de anomalias.

E se algo é mais violento que esse acordo silencioso, só pode ser a subjugação dos animais a essa sociedade. Renoir acompanha os coelhos e faisões enquanto os caçadores os trucidam de verdade, e o faz com o que parece sadismo, mas na verdade é indiferença. Afinal, a função daquelas criaturas é a de serem caçadas, e nada mais. Logo, sua câmera, que já se aproximara docilmente de um esquilo, não está interessada no bem-estar daquilo que capta: só se interessa no escrutínio do objeto, e se pessoas se tornam sombras na tomada final, esse é o maior julgamento que ele fará no filme inteiro. E, de qualquer modo, as sombras estão lá, para todos verem. A interferência do cineasta é meramente mostrar algo real sob outro viés. Habemus realismo poético.








