
O que faz de Blow Up uma obra de gênio não é simplesmente seu apuro estético avassalador. É a extrema oposição que o visual faz com a fala. Quem aprecia Antonioni está acostumado a ver a imagem assomar acima de diálogos, tramas e até mesmo personagens (vide O Eclipse), mas no primeiro filme em língua inglesa do italiano, a discussão atinge um novo nível. Ela se insinua através de um protagonista fotógrafo, que ganha a vida para dizer o que quer através de imagens. Isso fica claro na cena em que um colega de trabalho diz que acabou de bolar legendas para as fotos, e nem se preocupa em citá-las. Isso demonstra o mundo silencioso, visual, em que Thomas vive, um mundo em que ele não tem voz, no sentido literal. O que ele diz pelas fotografias, por outro lado, também é de pouca importância.
O mote do filme, o assassinato, demonstra muito sobre o personagem. E a centralidade do evento vai muito além de sua demora em surgir na narrativa, como reflexo da displicência perante acontecimentos sérios. A questão é que a evidência fotográfica, e praticamente todas as descobertas relacionadas, poderiam entregar o crime já resolvido nas mãos da polícia. Assim, o rumo que os eventos tomam diz muito sobre as limitações pessoais do protagonista. É com habilidade que o roteiro costura ações que vão se desviando da eficiência, até que a apatia contamine toda a história – chegando ao ápice num anticlímax violento, totalmente oposto à euforia inicial.

Essa urgência é artificial, algo que o enredo inteligentemente comprime em sua cronologia: a história se passa em um só dia. Os eventos são numerosos, tanto que elipses temporais parecem existir para juntá-los em um todo mais cadenciado e brando. Mas não, é um único dia, de ritmo intenso, como se estivesse abarrotado de realizações importantíssimas, e não está. Para adicionar aquele paradoxo típico de Antonioni, é nesse vácuo que o personagem é construído, exatamente em função de seu vazio. Seus minúsculos gestos (o pousar delicado de um toco de cigarro na estátua), as mudanças de humor (a reação às duas garotas que querem ser fotografadas) e o modo como trata as mulheres em geral (que pode ir do desprezo profissional à misoginia pura) são amostras de como seu comportamento é arbitrário, e revelador. E isso dialoga diretamente com sua profissão.
Se, por um lado, ele faz fotografias de moda, em ambientes fechados, em dado momento ele se vê num parque, local aberto e incomum, capturando imagens que revelam um crime. A ineficiência com a qual lida com essas informações é quase determinista, lembrando um pouco os personagens trágicos de Fellini, presos, como Thomas, a suas limitações profissionais e comportamentais. Nessa linha, o grupo de mímicos, que abrem o filme numa curiosa barulheira, é uma peça-chave na obra. O ambiente urbano, frio de Londres é como local de folga para tais profissionais: logo, eles gritam a plenos pulmões. Em uma situação mais propensa, se voltam ao silêncio da mímica, mostrando que, como o protagonista, não precisam de palavras para criarem comunicação.

Nessa interpretação se forma outro questionamento: na arte de falar sem palavras, apenas com imagens, há os que conseguem e os que não conseguem. Os mímicos certamente têm sucesso, a ponto de fazer alguém pegar uma bola de tênis imaginária. Se o protagonista tem, isso é explicitado no último segundo antes do “The End”, em que Antonioni se assume de forma definitiva como um terceiro profissional da imagem. Ele também se esforça para criar algo (Thomas) que não existe dentro do universo do filme, esmiuçando razões para essa não-existência: futilidade, deslocamento, inaptidão, falta de bom senso, covardia, maus costumes. Mais importante que as composições primorosas que a câmera do cineasta habilmente capta é o vasto leque de possibilidades que ele abre para explicar um vazio.
Por Pedro De Biasi